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Archive for Março, 2010


Marilhona, como a chamávamos carinhosamente, deu-nos a notícia bem ao seu estilo, sorrindo: “Vocês não sabem da maior. Dançou a operação sinal fechado. Quando abrimos a boca para pedir dinheiro ao primeiro cliente que estava num Karman Ghia, ele nos respondeu que era delegado de polícia e na sua delegacia a comunidade dos Novos Baianos já estava em pauta. E, embora ele gostasse da nossa música, alertou que, se não pararmos com isso, entraremos em cana por vadiagem”. A salvação veio através de João Gilberto que até então não sabia de nada disso estava lá naquele dia não belo mas, em que ele o estava o fazendo azul como o seu canto e acalmou a todos, dizendo: “Não esquente não. Vamos continuar com o som. Vamos continuar com o sonho”. Ele tirou do bolso o equivalente a 50 dólares e entregou para Marilhinha, mulher de Paulinho que administrava a alimentação da casa: “Quero um café da manhã cinco estrelas, com frutas, passas, ameixas, queijo, biscoitos finos e sortidos, ovos, geléia, iogurte, tortas e mel. Arrume a mesa para um banquete”. Alguém tomou a palavra: “Sendo assim, vamos convidar Dona Silvia”. Eu, que já sabia como João é defensor radical da sua privacidade, sendo capaz de desaparecer como um paranormal a fim de não conhecer qualquer Dona Silvia, expliquei: “João, é que temos uma amiga de 65 anos, uma mendiga que divide a comida com os vinte e tantos cachorros vadios que a acompanham”. João aprovou a idéia, e Paulinho Boca sabia onde era o barraco em que ela se escondia e foi buscá-la de carro. A mesa, posta como João pediu. Frutas das mais variadas espécies, biscoitos deliciosos e sortidos, entre eles, bolachinha de goma e fofão, este, de confecção caseira, encontrado apenas na Bahia e adjacências. Não sei como descobrimos a bocada daquela raridade. Uma mesa farta esperava por nossa convidada, e quando Dona Silvia chegou, toda despachada como era, João não resistiu e deu-lhe um carinho especial, beijando-a e abraçando-a. Ela retribuiu dizendo: “Pronto, mais um filho. E como é bonito e delicado. Parece um violão. Eu adoro estes meus filhos cabeludos. Ele também é. Vocês com essas cabeleiras do Zezé cobrindo os olhos não podem ver mais eu estou vendo”. João deu as novas para ela:
– Vovó Silvia, os meninos me convidaram para o café da manhã do seu aniversario.
– E como vocês souberam que eu nasci no dia de hoje? Esta foi sua resposta e apontou para João, dando aquela risada gostosa que só ela sabia. Voltou seguindo o papo:
– Mas não contei nem para os meus cachorros.

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Novos Baianos, a volta em 97


Em 97, aprontei o livro Anos 70 Novos e Baianos, e fiz o lançamento em São Paulo na casa de espetáculos Bar Avenida, acompanhado por um show onde eu abria com o meu trabalho solo, acompanhado por uma banda e os Novos Baianos o encerava. Foi um sucesso.
Uma semana depois estava conversando com Moraes lá no estúdio dele no Rio de Janeiro, acertando para fazermos o lançamento na Cidade Maravilhosa, nos mesmos moldes, quando ele atendeu um telefone e contou-me entusiasmado, que acabara de receber uma proposta irrecusável para gravarmos um CD dos Novos Baianos com a gravadora Universal. Telefonamos para Paulinho Boca em Salvador, contatamos com Pepeu e Baby , e logo assinamos contrato em grande estilo.
Como a maioria mora no Rio, eu e Paulinho viemos e ficamos num hotel durante as gravações e o período destinado para as entrevistas que anunciaram a novidade. À noite íamos para o apartamento de Pepeu, onde fazíamos as músicas, preparávamos os arranjos e o pessoal do gogo aprendiam as músicas e letras cantando-as. Tudo dentro de um ritmo de criatividade, festa, esperança e intervalos com conversas relembrando histórias do passado, que agora estão contadas aqui, além do grande número de piadas que rolaram e nos fizeram rolar de rir.

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Desembarque dos Bichos

Aquele espetáculo era o primeiro da nossa carreira, o qual eu dirigia do palco, falando “luz aqui”, “luz ali”, e a técnica me atendia prontamente, mas nem eu ou qualquer outro dos Novos Baianos tinha alguma experiência com aquele tipo de atuação. De qualquer forma valeu pelo repertório completamente inédito e com músicas consagradas posteriormente como “Ferro na Boneca”, “De Vera”, “Colégio de Aplicação” e “Swing do Campo Grande”. Valeu pela presença dos futuros destaques dos Novos Baianos, aprovados pelos olhos nacionais, e, principalmente, pela criatividade e improvisação que rolaram do início ao fim. Valeu tanto que lotou o Vila Velha nos três dias de espetáculo.
Merece destaque o grande momento de improvisação. Lá pelas tantas, Seu Vagner, um ator baiano que fez o papel de Chita de Tarzan, no filme Meteorango Kid Herói Intergaláctico, e o repetia no show, falando textos de Oswald de Andrade, desceu por uma corda e, por descuido, tocou com o pé numa ponta cabeça expondo ao ridículo a trama do papel celofanes vermelho que fazia o fogo. No mesmo instante, eu, que dirigia o show do palco saltei sobre a lareira pisando-a, no que fui seguido pelos que estavam no palco. Destruímo-la com os pés num gesto unificado, numa ligação automática e numa comunicação telepática. Na seqüência Super Boy, na coxia perguntou-me: “Posso voar?” E eu sem vacilar disse: “Vá à luta e sorte”.
Pra que eu fiz isso? Super Boy meteu os dois braços e a cabeça entre as cordas de um balanço que estava pendurado na frente do palco, recuou até o fundo para criar o impulso, voando todo durinho que só um avião sobrevoando as cabeças dos presentes na extensão de oito metros da ponta do palco. Quando ele voltava do segundo vôo e ameaçava dar o terceiro, Paulinho Boca me deu um toque, lembrando que Tuzé de Abreu já tinha quebrado o outro balanço. Sem combinação alguma, mas, de forma automática, pegamos, eu e Paulinho, um em cada braço do Super e o retiramos de cena. Aí é que foi: para evitar o buraco e dar uma explicação plausível ao público, saquei uma cabeça de Batman, que estava largada no fundo do teatro, coloquei numa bandeja, e, aludindo às cabeças cortadas dos artistas pelo tempo que vivíamos, enquanto Baby dava uma volta pelo palco, eu subi até a iluminação onde Grandhi trabalhava com o retroprojetor e dei-lhe um texto que ele transcreveu para perplexidade da platéia: Não sobrou nem a cabeça do irmão de Super Boy.

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Vou contar a história de uma das primeiras músicas que fizemos na pensão de Dona Maritó e que veio a fazer sucesso. Ferro na Boneca teve como tema a nossa caminhada e a irreverência no encalço do novo e revolucionário. Para torná-la popular usamos no final da letra a linguagem do radialista França Teixeira que era a coqueluche na época em Salvador. Ele fazia um programa que alcançava a maior audiência e nos chamou à atenção a sua criatividade quando ele dizia: “É ferro na boneca. É no gogó neném”. Por outro lado usamos outra influência que foi o termo concretista de Décio Pignatari Produsumo. Ainda recorremos a veloz linguagem de quadrinhos e desenho animado: Pluft, pluft, pluft por Grandhi, um amigo que estava sempre com a gente e dizia: “Vocês são pluft, pluft, pluft”. E Angeli usou como trilha no seu genial longa anima Wood & Stock, Sexo, Oregano e Rock E N`Roll , dando continuidade ao lance e marcando o gol.

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BOLA MORAES

Bola conheceu os Novos Baianos. Trazido por Deo um malandro conterrâneo meu lá de Juazeiro, na fase em que o grupo morava do Hotel Danúbio. Na época tornou-se visita diária, sem feriado nem domingo. Um dia ele apareceu lá acompanhado de Zé Baxinho, Gonzaga e Edu Omelete, amigos seus de infância.
Quando nos mudamos para a casa do Imirim, ele e Baxinho ficaram uma dupla de visitante e colaram direto, participando das ruins e das boas sem reclamar de nada, e quando os Novos Baianos trocaram São Paulo pelo Rio em 1971, Bola pegou seu fusquinha e desembarcou na nossa comunidade instalada em Botafogo na Rua Conde de Irajá. Foram eles depois de Gato Felix os primeiros componentes daquele agrupado maravilhoso. Dadi que depois veio a ser o primeiro baixista da banda passava dias, e todo dia dava pintada, mas muito apegado a sua família nunca foi morador daquele pedaço nem do sítio de da Boca do Mato.

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Nós sentíamos um misto de admiração pela arte dos tropicalistas e pontos de afinidades com a vontade de fazer bonito, ousado e, principalmente, o revolucionário. Fomos despertados por isso. Antes também, quando a Bossa Nova dera esse clima, eu escolhi essa barca e, da linha evolutiva, nunca me afastei. Os anos 70, somados aos dois últimos da década anterior, traduzem esse tempo que é respeitado pela qualidade artística desenvolvida.
Ficamos felizes quando o empresário artístico, Guilherme Araújo, ao retornar do exílio em Londres, junto com Caetano e Gil, nos disse: “A luta e a vitória de vocês foram fundamentais para que não pudessem dificultar nossa volta e até tentassem apagar nosso trabalho com a borracha da linha contraia a evolução”.
Feliz mais ainda fiquei quando Caetano fez a música “Farol da Barra”, com letra minha. Feliz porque a música ficou linda e eu sabia disso antes mas, nunca como quando se ouve. Posso dizer que sou parceiro de Caetano Veloso, que pra mim é o melhor poeta do meu tempo, dentro da MPB. Vejam como foi muito bonita a parceria Tropicalismo-Novos Baianos em “Farol da Barra”:

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Numa noite João Araújo chamou a empresária Monica Lisboa lá em sua casa para ver-nos cantar. Ela logo após ouvir a primeira música disse: “Vocês são maravilhosos mas, precisam ter uma cantora no grupo. A voz feminina e a presença da mulher no palco são fundamentais para que vocês façam sucesso mais rápido. Sou a empresária da Rita Lee que se separou dos Mutantes e posso juntá-la ao grupo de vocês, ela não nasceu na Bahia, mas pode ser uma Nova Baiana”.
Respondi: “Gosto e admiro a Rita, mas já temos a nossa Rita Lee”. E o dialogo continuou assim:
– Quem é?
– Bernadeth Dinorah, uma jovem de 16 anos que está na Bahia andando na rua com um espelho de retrovisor de carro na testa e a calça rasgada do joelho.
– Eu sei quem é! Ela é ótima e cairá como uma luva no nosso projeto.
No mesmo dia ligamos para nosso amigo Joildo Goes, o Tuaregue pedindo para que encontrasse Bernadeth a futura Baby Consuelo, hoje do Brasil. Ela chegou pela manhã, a tarde aprendeu duas músicas e a noite a levamos na casa de João Araújo.

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