Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Fevereiro, 2011

BAGDÁ E NOVOS BAIANOS

BAGDÁ E NOVOS BAIANOS
      
         Com o mundo globalizado, só a cultura identifica e distingue. Se um dia o Brasil acabasse, nada restaria das nossas árvores, das nossas cidades, de nossos rios, de nossa gente e de nossas montanhas, o silencio boiasse num mar sem águas de areias e ventos, e um deserto imenso cobrisse a face do que já não éramos. mas se no meio desse nada, desse vazio que não cabe na nossa imaginação restasse um único disco de música popular brasileira, bastaria isso para que se soubesse que aqui existira uma grande civilização, uma formidável cultura.
          Esse disco seria a pista para encontrar nas letras a poesia, os costumes e os sentimentos mais profundos, do amor ao ódio, da traição à fidelidade. Pela melodia poderíamos identificar os instrumentos e os seus sons pelas vozes, as pessoas que cantavam. Seria descoberta dos rios mortos, das montanhas desaparecidas, da vida do povo que aqui vivera e, no meio dessas descobertas, veríamos renascer o Brasil e os brasileiros.
          A religião, as nossas crenças, os nossos deuses, nossas festas, tudo seria possível reconstruir, através desse único tesouro, a memória da música popular brasileira. E no meio dessa riqueza de sons, surgiriam os velhos do meu tempo, os clássicos de hoje. Luiz Gonzaga, o Gozagão, a cantar “Riacho do Navio”, João do Vale, no “Vento Leste”(e, já que entrei nas águas do Maranhão, Chico Maranhão, Bulcão e Godão, Nazaré e Alcione), Noel Rosa, em “Conversa de Botequim”, o “Carinhoso” , de Pixinguinha, Miguel Gustavo no “Hino da Seleção”, Elizeth Cardoso, cantando “Chão de Estrelas” de Orestes Barbosa , a “Ronda” de Paulo Vanzolini, Roberto Carlos com “Nossa Senhora”, Bethânia e aí para coração. Não cabem neste espaço todos os outros, grande expressão do talento nacional.
          Eu sairia pra respirar e lembrar-me do que me fez olhar e descobrir a juventude sadia dos meus filhos, quando os Novos Baianos entraram na nossa casa e na nossa vida, invadindo as madrugadas com sons que até hoje me recordam esses encantos e esses tempos. Duas coisas me intrigaram e me fazem protestar inconformado com o fato de sermos volúveis, o esquecimento de José Lins do Rego, que não se edita , que os de hoje não conhece, o grande romancista das secas, de obras primas como” Fogo Morto”, e dos Novos Baianos. Estes são um grande momento da musica popular brasileira “Acabou Chorare” é um clássico, canções que, quando meus filhos estão de violão a cantar: Toquem “Preta Pretinha,” “Mistério do Planeta”… E Caetano Veloso, Luis Vieira, Milton Nascimento, Papete, Tom Jobim, Chico Buarque e esse mundão de talentos e de Brasileira está na cultura popular e nada mais forte nessa cultura do que a música.
          Tudo para dizer o quanto sofri quando vi a destruição do museu de Bagdá e a queima da biblioteca nos incêndios e bombardeiros da cidade.
          Sempre evoco que o maior desastre “ecológico”, que levou um pedaço gigantesco da vida na terra, da vida, que são livros , foi a queima da biblioteca de Alexandria.
          Se tivessem destruído tudo em Bagdá, mas tivessem deixado os livros e o museu, seria possível descobrir que ali existiu uma grande civilização. Aqueles testemunhos da história do homem não poderiam morrer.
           Com o ministro Gilberto Gil, cantor da alma brasileira, divido o coração ferido. Ele sabe que, aqui ou em Bagdá, “em Guadalajara” ou “longe em Nova Déli”, a cultua é o mais alto do homem. Nos céus, os valores do espírito.
José Sarney
Presidente do Senado e membro da Academia Brasileira de Letras
Artigo Publicado na Folha de São Paulo em 25/04 2003

 

Anúncios

Read Full Post »