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Archive for Abril, 2011

 Na história da música popular brasileira, a eclosão da Bossa Nova, aparecia sempre como um fenômeno. De que maneira, na região de Juazeiro da Bahia, poderia surgir um músico da categoria de João Gilberto, dotado de tal originalidade e com tanta força inventiva? Tudo acontecia ao mesmo tempo, a criação de Brasília, a nova ficção de Jorge Amado a partir de  “Gabriela”, o começo da era da Televisão no Brasil, o Prêmio de nosso cinema em Cannes, mas a Bossa Nova ia na frente como vanguarda de uma descoberta.

             Quem era, como surgira, que fizera antes o inovador João Gilberto? Lembro-me de que, em 1967, eu como Professor Visitante na Universidade de Columbia em Nova York, fiz amizade com um pesquisador mexicano, José Villicana, que um dia me pediu:

Quero conhecer João Gilberto que está em Nova York. Você pode conseguir um encontro meu com ele?

Telefonei então para João Gilberto que marcou nossa visita ao apartamento

em que estava na cidade e lá fomos nós. Zora, eu e Villicana, vê-lo em sua residência novaiorquina, onde passamos de duas a três horas conversando. Foi uma conversa de brasileiros, quem mais fez perguntas foi Villicana, que ali estava para isto. João Gilberto respondia a todas com tranqüilidade, quanto a nós fizemos comentários sobre como era morar em Nova York, minha atividade na Columbia, os filmes do momento.

              No livro de Luiz Galvão, que leio agora, vê-se que o domínio de João Gilberto sobre o violão contribuiu para que ele atinja um volume de som determinado para cada dedo, realçando as notas agudas e graves sem abandonar as notas intermediárias.

             O relacionamento de João Gilberto com seu instrumento funciona de modo perfeito, inclusive num estudo do uso de determinados dedos – o indicador e o polegar, por exemplo.

             Há um “chão” na técnica de qualquer instrumento. Sobre ele trabalha João Gilberto, num permanente compromisso com o som.

             O trabalho de Luiz Galvão não é  excessivamente técnico, mas consegue abarcar todas as nuances de um artista complexo como João Gilberto.

             Analisa, inclusive, o modo de João Gilberto se proteger, às vezes não atendendo ao telefone durante dias ou não recebendo visitas. É, a dele, uma solidão criativa, uma preservação de seu tempo e de sua atividade exclusivamente dedicada à música.

             Por outro lado, João Gilberto vive antenado com tudo o que acontece na área musical e em assuntos correlatos.

             O livro de Luiz Galvão é um documento precioso e raro. Divulga a posição do artista em vários setores, mostrando-o também como ligado, antes de tudo, à Bossa Nova como um avanço musical internacional capaz de identificar e elevar um país.

             Os apêndices do volume incluem letras do repertório do artista. È livro que ficará na fixação necessária do mais forte movimento musical de um tempo, originário do Brasil,

                                                                      Antônio Olinto

                                                        Da Academia Brasileira de Letras

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Yogananda cativou Novos Baianos pelo seu modo de viver e por contar acontecidos que outro religioso evitaria narrar, por considerá-los de pouca ou nenhuma importância. Eu mesmo me identifiquei com ele, quando o grande Mestre falou de milagres que aconteceram nos seus estudos, quando entrou em provas escritas e orais no seu período estudantil sem estudar, mas forças divinas responderam por ele, viabilizando a sua aprovação. Mantendo as devidas proporções, também experimentei tais milagres, mas não os considerava, até ler Yogananda. Pensava eu: “Foi coincidência. Não tinha esse direito de pedir uma besteira, como passar numa prova sem ter estudado. Deus é coisa séria”. Quebrei a cara. Yogananda é um santo com alma de menino.Vários jovens assimilaram Yogananda, indo além do livro – quando lhes recomendei Autobiografia de um iogue mudou o rumo de suas vidas. Não sou de chorar por problemas ou dor, mas em filme, em momentos de alegria junto com felicidade, surpreendo-me com as lágrimas descendo pelo rosto. Há capítulos em Autobiografia de um iogue em que esse tipo de lágrimas aparece, deixando-menuma felicidade que os nomes de Meus filhos Lahiri e Kashi surgiram do seu livro.

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PRETA PRETINHA

Preta Pretinha

moraes/galvão

Enquanto eu corria assim eu ia

Lhe chamar enquanto corria a barca

Lhe chamar enquanto corria a barca

Lhe chamar enquanto corria a barca

Por minha cabeça não passava

Só somente só

Assim vou lhe chamar

Assim você vai ser

Só, só  somente só

Assim vou lhe chamar

Assim você vai ser

Só  somente só

Assim você vai ser

Laiá-lará-lalalará-Lairá

Preta preta pretinha

Preta preta pretinha

Preta preta pretinha

Preta preta pretinha

EU IA LHE CHAMAR

Enquanto corria a barca

EU IA LHE CHAMAR

Enquanto corria a barca

EU IA LHE CHAMAR

Enquanto corria a barca

Lhe chamar

Enquanto corria a barca

EU IA LHE CHAMAR

Enquanto corria a barca

Lhe chamar

Abre a porta e a janela

e vem ver o sol nascer

Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer

Eu sou um pássaro que vivo avoando

Vivo avoando sem nunca mais parar

Ai ai ai ai saudade não venha me matar

Ai ai ai ai saudade não venha me matar

Eu ia lhe chamar enquanto corria a barca

Eu ia lhe chamar enquanto corria a barca

A minha versão sobre a inspiração de “Preta Pretinha” tem que acoplar todas essas histórias e admitir todas as musas, além da que serviu de pivô, apertando o botão que deve ter provocado a explosão da música. Foi mais ou menos assim: uma jovem combinou comigo para que eu fosse a Niterói conhecer seu pai e, na volta, ela viria morar comigo no apartamento dos Novos Baianos, em Botafogo. Pegamos a barca, conheci o pai dela, mas, na volta, ela se arrependeu e voltou para o seu namorado. À noite, escrevi a letra sob o impacto desse insucesso e, na certa, o subconsciente deu uma panorâmica em todas as minhas histórias de amor.

Quando escrevi a frase “Por minha cabeça não passava só, somente…” me lembrei de Socorrinho  “Socorrinho” , a minha namorada de Juazeiro no período 61-65, e coloquei: “só somente só”, em homenagem ao bonito que fora aquele amor juvenil, que ficou registrado nos anais de fofoca da cidade. E pensei: Juazeiro vai dizer que eu fiz essa música para Socorrinho, quando na verdade foi uma longa história recheada de musas. A cidade foi além e, quando vou a Juazeiro, várias pessoas que participaram daquele passado, ou os seus filhos, que ouviram das suas bocas, e com os corações transbordando saudosismo, me perguntam: “E Preta Pretinha?” Eu inocentemente respondo: “Está tocando no rádio”. No entanto, aquele tipo de juazeirense não é fácil e revive a história: “Não, eu estou perguntando é por Socorro, a filha de Amelinha . Os juazeirenses não deixam de ter razão, porque eu, em momento algum, guardei a mínima dose de mágoa de Socorrinho, porque naquela separação desagradável sempre admiti ter havido falhas de ambas as partes. O que ficou de negativo foi o descrédito com relação à fidelidade, e passei a namorar apenas para praticar sexo e descartei a ideia de ter uma mulher junto de mim, mas Socorrinho era sempre, no fundo do meu coração, uma boa lembrança. Isso durou um tempo, até que surgiu  “Janete” , o amor que me fez mudar de ideia e resolvi não só dividir com ela a cama, mas também ter filhos. A coisa mudou tanto que nós estamos juntos, interando 27 anos.

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Aniversario

Hoje, dia em que estou inteirando setenta e quatro anos com disposicao do menino correndo com a bola,  recebendo os amigos , arrodeado dos meninos, da musa , chegando de Juazeiro onde recebi o amor de meu povo e bebemos da agua do mesmo saofraciscano rio por onde sempre navego.de encontro com a Poesia  Lingua de Deus e Minha, feito Show que estrearemos dia 17 de junho no Teatro do Irdeb Salvador-Ba e depois desaguando por esse mundao .

Para facilitar o entendimento daquele tempo vivido pelos Novos Baianos, tenho que falar desse assunto complexo e em choque com a área irreal em que atua a sociedade, ou o infantil, preconceituoso e oficioso pensamento de quem se arvora dono da palavra mas, sem grau para tal. As transformações da individualidade de um ser humano, como no meu caso, que passei anos para chegar a essa compreensão de hoje ainda pequena para onde quero chegar.. O que venho aprendendo nesse delicado assunto é que o bom exemplo é o primeiro passo para que o orientado aceite a orientação de alguém. Não adianta alguém pensar que porque sabe alguma coisa basta soltar o verbo para que todos que o ouvem possam receber o ensino passado. É preciso transmitir confiança para o alvo da mensagem. Os livros têm grande importância mas, do cotidiano nos faz desconfiar de soluções ditadas de cima para baixo. O melhor pra quem quer ensinar é se colocar no lugar de quem errou, para encontrar um grau de compreensão, e falar o que aquela pessoa precisa ouvir, e não o que o orientador quer dizer, e acima de tudo mostrar nas suas palavras por mais duras venham pitadas de amor, porque eu quando orientado olho bem esse detalhe. Com isso estou aprendendo que ouvir o outro e exercitar a paciência é o melhor remédio tanto para quem recebe a orientação como para o beneficiado em passá-la. Chego a imaginar que desejar o bem já é uma e fazê-lo, por mais que venha ser para quem recebe tenho quase certeza que melhor ainda é para quem o faz. Tenho recebido o bem e quero nunca esquecer a bondade de alguém para comigo. Ser solteiro é coisa pra adolescente e eu gostei tanto que fiquei naquela até os 47 anos mas, venho aprendendo que paciência se exercita mesmo é no dia a dia de um casal, porque conviver sob um mesmo teto requer a paciência se aproxima da de Jó mas, em compensação é um aprendizado de primeira linha.


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Não se pode falar da passagem do rio S. Francisco em Juazeiro sem incluir Petrolina. As duas cidades formam mais que um par romântico, seja na dança clássica, na gafieira ou na poeira de um terreiro de forró; seja como uma dupla arrasadora de área, no bom sentido de ataque ao gol, ou até como um casal imaginado perfeito, de mãos dadas ao luar. Vejo-as dois pensamentos diversos, dois ângulos opostos de um mesmo vértice. Distintas são, cada uma no seu argumento, no seu talento. Juazeiro ganha em arte, é claro, porque deu João Gilberto; e Petrolina, em progresso, pela organização de seus construtores. É o lazer e o trabalho se completando. Memória e pensamento habitando a mesma cabeça. Como hoje é sabido, lazer é trabalho feito para divertir, vira combustível para sensibilizar corações, da mesma forma que trabalho vira lazer quando se faz o que se gosta. E é aí que as duas cidades completam a paisagem que margeia o rio em cujas águas João Gilberto nadou entre os peixes, atirou pedrinhas em sua superfície e colheu inspiração para a música Undiú.

  João Gilberto Pereira de Oliveira é filho de Joviniano Domingos Pereira de Oliveira e Martinha do Prado Pereira de Oliveira. Nomes constantes do registro em cartório porque, em Juazeiro, eram conhecidos de todos como seu Joviniano e dona Patu. Esses privilegiados pais receberam o merecimento de orientar um menino de coração meigo e talento artístico muito especial, de quem receberam respeito e alegria até seus últimos dias

  A família era numerosa. Com João, mais cinco crianças travessas e alegres faziam a felicidade do casal. Maria, que lembra bem dona Patu, pelo carinho materno que demonstra a toda a família; Vavá, fisionomicamente bem parecido com João; José Eurico (Dedé), cuja poesia é temperada pelo humor de Juazeiro (vide mostra no final do capítulo), Jovino Antonio e Maria Oliva, a caçula Vivinha, que ainda reside em Juazeiro e leciona na casa onde todos nasceram, na Praça Imaculada Conceição nº 20, em cuja fachada hoje está afixada uma placa com os dizeres “Aqui nasceu João Gilberto, o criador da Bossa Nova” Além destes, seu Joviniano tinha dois filhos do primeiro casamento:  Walter e Valcyr. Esta casou com Mário Belo Amorim que foi para a Bolívia como adido militar e tornou-se vice cônsul em Santa Cruz de La Sierra.

Existem, no meu relacionamento com essa família, alguns fatores que nos aproximaram e estreitaram nossos laços de amizade. Seu Joviniano foi comerciante bem sucedido no ramo de secos e molhados e, tal como meu pai genético, José Leandro da Costa, também foi navegador no rio S. Francisco, transportando, em barcas, mercadorias de Juazeiro a Pirapora e cambiando, no retorno, produtos mineiros; com Dedé, havia a afinidade do gosto pela poesia. Vejam esta, que é a minha preferida:

ELA

          (José Eurico)

Ela menina,

eu disse:

olhe a boquinha dela.

Ela, moça,

eu fui dizer

olhe a boca dela,

reprovaram-me.

conselharam-me

que dissesse apenas boca

 que a boca não era mais dela.

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Dia 17 de junho no Teatro do IRDEB e 30 na praca Tereza Batista no Pelourinho estreia o espetaculo Poesia a Lingua de Deus e Minha, festejando os 42 anos de criacao dos Novos Baianos.
 Luiz Galvão, poetae interprete, é um dos criadores do grupo musical Novos Baianos, quando em 1969, junto com Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Baby ex-Consuelo, agora do Brasil, acompanhados pelos L`eifs liderada pelo guitarrista Pepeu Gomes fizeram o show Desembarque dos Bichos Depois do Diluvio Universal, no Teatro Vila Velha, em Salvador na Bahia, dando o pontapé inicial da vitoriosa carreira do legendário Novos Baianos, que marcou a música brasileira em sua época (duraram de 1969 a 1979) até os dias de hoje;
Galvão Poesia é a Língua de Deus e Minha, trata-se de uma apresentação artística dirigido pelo ator e diretor da TV globo Jackson Costa reunindo poesia, música, esquetes teatrais e cinema, onde Galvão é o protagonista, ao lado de Baby do Brasil e Paulinho Boca de Cantor.
Na batuta seu filho Peu souza, hoje fazendo carreira em Los Angeles, guitarrista de renome nacional com um historico de trabalhos com Pitty, marcelo D2 e Carlinhos Brown.


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Os caminhos cruzados na contemporaneidade da história do planeta e do homem,e o mistério de sermos conterrâneos naturalmente somam para minha observação, mas não mas não é por ser amigo de João que eu falo essas coisas. Ele podia ter nascido onde quer que fosse, mas tendo o canto e o acompanhamento que faz com o violão, a concepção artística e o talento que o faz universal, eu o veria como o artista primeiro sem tirar uma vírgula do que vejo hoje no conterrâneo.

Quando se fala de João Gilberto vem logo uma conversa repetida de que João Gilberto reclama de tudo. Não é bem assim. O que todo mundo vê, mas ninguém quer enxergar, é que João só reclama pelo retorno do som, para se ouvir e poder fazer uma apresentação impecável. Esta é a realidade e que está sendo falada só aqui agora.

Venho ilustrar contando um momento de grande intuição, raciocínio rápido e de rara beleza, nos dado por esse artista. No Teatro Castro Alves, em Salvador tudo corria bem até religarem o ar-condicionado, a que João chama de ar refrigerado. Talvez ele assim o faça referindo-se à refrigeração do ambiente, ou pelo efeito que esse elemento famigerado causa no som. Naquela hora, ele disse: “Outra vez ligaram o ar refrigerado. Não sabem que desafina as cordas vocais e as do violão? Isso mata. A França já sabe disso. Cria um ambiente de contaminação. Mata um, mata outro e vai matando até ficar só ele… o ar refrigerado. Bonito! Que graça! Só ele. Eu não acho. Vocês acham? (A platéia quase toda em coro: “Nããããão”) Muitos anos atrás, quando eu fiz um show aqui mesmo neste teatro, havia um motorzinho para ligar o ar refrigerado que ficava bem embaixo de onde estou, e fazia tal trepidação no piso (faz gesto encenando) que eram obrigados a desligá-lo durante a apresentação. Ai que saudade daquele motorzinho…”

 

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