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Posts Tagged ‘Gilberto Gil’

 

Galvão: Rogério, como o Tropicalismo está perto da Bossa de João e, ao mesmo tempo, no auditório da Jovem Guarda de Roberto?

Rogério: Ontem Caetano me disse uma coisa de uma atriz internacional, que casou com um importante ator ou diretor de cinema. Ele disse: “A minha diferença com ele é que eu não venero Bob Dylan”. E a gente comentou que talvez esse desejo de negar fosse sintoma de uma importância, e lembramos o que surge de novo: João Gilberto não enterrou o passado, pelo contrário, Ary Barroso, Herivelto Martins, Pedro Caetano, estiveram sempre vivos na sua voz. Daí o tropicalismo tentar ser uma espécie de religião de tudo. Em suma, éramos adoradores de João Gilberto e de outros como João Gilberto também, que nunca quis ser mais que apenas a música popular. A pura Canção. O eterno menestrel. A jovem guarda era absolutamente irresistível. Roberto Carlos era irresistível, e uma vez dei um pontapé na televisão porque a minha namorada ficava olhando para ele. Eu pensava que ela viajava escondido pra São Paulo para namorar com ele. Ele tinha uma franjinha caída do lado da testa. Enfant Terrible. Eu tive logo que ceder aos seus encantos mas, no princípio cheguei a ter raiva do seu charme porém, jamais poderia negar o surgimento do rei. Neste princípio, Roberto Carlos foi a nossa vanguarda. Porra, como esse cara é moderno, sentíamos. Jovem Guarda, edição tupiniquim dos Beatles, em nada inferior à matriz de Liverpool, já João Gilberto vinha desde o princípio e teria que ir até após o fim.

 A Tropicália teve o comando de Gilberto Gil, Caetano e empresarial de Guilherme Araújo, a minha participação crítica e agitação.

Galvão: Como você sentiu os Novos Baianos na prática de filhos do Tropicalismo?

 Rogério: Ontem mesmo conversamos segunda, terceira. E por isso puderam se dar ao luxo de serem tão maravilhosos”.eu, Caetano e Gilberto Gil, sobre os Novos Baianos e Caetano disse: “Aquilo era o máximo. Inacreditável. Ninguém podia imaginar”. Aí eu disse: “Eles eram uma terceira geração de alguma coisa. Não primeira ou segunda, terceira. E por isso puderam se dar ao luxo de serem tão maravilhosos”.

 

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O momento, no entanto, era revolucionário na arte brasileira, em paralelo com o comportamento da juventude, discordavam de qualquer toque vindo de algum conhecimento oficializado, como era o caso de c, um diretor vindo de escola. Era a vez dos autodidatas. O grupo não aceitou a proposta de Mônica e foi unânime a decisão de só aceitar a minha direção, que, embora tivesse cursado a universidade, falava a mesma língua, vivia o mesmo sonho. Talvez tivesse sido bom para o grupo a direção do Fauzi que, na certa, nos daria uma postura teatral, que poderia se desenvolver ao longo da existência do grupo. Eu, da minha parte, não me incomodaria, uma vez que ainda na Bahia permitira que Valtinho Lima, um diretor de cinema baiano e nosso amigo, dirigisse o primeiro espetáculo, O Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal. Não deu certo e eu vim dirigir. Perdemos a experiência de Valter Lima, mas ganhamos em criatividade. A realidade quis assim. Com Marcos Lázaro era diferente. Nós até insistíamos e fizemos uma proposta para apresentarmos um espetáculo num teatro grande, que hoje tem o nome de Zácaro, e que, na época, estava nas mãos dele. Dom Marcos nos disse que não tínhamos público ainda e que ele já acertara para a inauguração o espetáculo com Rita Pavone. Avisamo-lo de que Rita era carta fora do baralho, mas ele foi irredutível e o fracasso foi inevitável. O show não passou do primeiro dia, porque foram apenas cinco pessoas e Rita suspendeu a temporada no Brasil. Àquela altura, ela já era uma senhora, não tinha mais molejo para aquela onda vivida no auge da sua carreira. Marcos acreditava e muito nos Novos Baianos, desde o primeiro encontro, e passava por cima daquilo que se chamou travessura e irreverência do grupo e imagem fora dos padrões, porém, tudo dentro daquilo que imaginara, ou seja, usar o grupo no mesmo espaço em que colocava os artistas do seu Cast.

O pessoal que trabalhava com ele fazia apenas shows em clubes, até Roberto, o rei, e principal estrela da companhia, não fazia ainda shows em teatro. Poucos tinham sido os espetáculos desse gênero realizados no país. Na Bahia, havia Roberto Santana, um primo de Tom Zé e sobrinho do deputado federal Fernando Santana, que agitava o Teatro Vila Velha com shows musicais. Fizera o Nós, Por Exemplo, com Caetano, Gil, Gal e Tom Zé, fora um sucesso, com o lançamento dessa constelação de estrelas baianas, que depois decolaram e se transformaram nos astros que todos conhecem. No Rio, o Teatro Opinião era o único palco para os cantores, e lá iniciaram suas bem sucedidas carreiras, Nara Leão, Bethânia e João do Vale, que apareceu com a música Carcará.

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. Nós estávamos ainda muito influenciados por Chico Buarque e as músicas Pedro Pedreiro, Quem te Viu Quem te Vê e Carolina, nos colocavam numa racionalidade bem distante do revolucionário Tropicalismo, embora Alegria, Alegria e Domingo no Parque, já flertavam conosco para ficarmos mais para Caetano Veloso e Gilberto Gil que para Chico Buarque, mas Béu foi fundamental quando nos disse: “Levem o disco e em casa mais calmos, ouçam que vocês vão entender porque isso é o que está mais próximo do que vocês estão fazendo”. Não deu outra e ao ouvirmos pela segunda vez ficamos encantados passamos a imitar o Tropicalismo até encontrarmos a nossa identidade como Novos Baianos. O nosso primeiro disco Ferro na Boneca, eu considero um disco tropicalista, mas pela grande influência do trabalho de Caetano, Gil e Tom Zé.
Éramos amigos do pessoal da academia de capoeira Angola, do Mestre Pastinha, e até fizemos um show no salão, no qual os alunos comandados pelo mestre fizeram uma exibição, eu recitei, e o Canto 4, que era o grupo de Moraes, cantou algumas músicas que estavam em evidencia na época, como “Quem Te Viu, Quem Te Vê” de Chico Buarque, “Procissão” ,Gilberto Gil, “Um Dia” ,Caetano Veloso e “Porta Estandarte” Fernando Lona. Genaldo Lemos que chamávamos de Naldinho e seu irmão o capoeirista Gildo Alfinete nos apresentaram a cantora Eliana Pittman, que gravou a minha primeira música de parceria com Edil Pacheco. A revista O Cruzeiro fez uma reportagem, cobrindo o assunto e fizemos a fotografia no forte São Marcelo. Eu e Moraes aparecemos ainda com os cabelos curtos.
Tom Zé foi quem juntou a dupla Moraes e Galvão, e ali quando estávamos iniciando a nossa profissionalização artística foi o nosso principal orientador; e sua palavra teve significativo peso na integração de Paulinho Boca ao grupo. Havia por parte dos intelectuais que conviviam conosco, uma posição radical pedindo a formação da dupla Moraes/Galvão, a exemplo de da dupla Tom e Vinícius, e excluindo Paulinho Boca, que eles não sentiam caber na historia. Falei com Tom Zé que nós gostávamos de Paulinho e sentíamos a sua importância. Tom disse: “É claro, a voz de Paulinho é muito bonita e a desinibição dele vai ser muito importante no palco. Façam um grupo, que é melhor para vencer as barreiras que vocês vão enfrentar”.
Vou contar a história de uma das primeiras músicas que fizemos na pensão de Dona Maritó e que veio a fazer sucesso. Ferro na Boneca teve como tema a nossa caminhada e a irreverência no encalço do novo e revolucionário. Para torná-la popular usamos no final da letra a linguagem do radialista França Teixeira que era a coqueluche na época em Salvador. Ele fazia um programa que alcançava a maior audiência e nos chamou à atenção a sua criatividade quando ele dizia: “É ferro na boneca. É no gogó neném”. Por outro lado usamos outra influência que foi o termo concretista de Décio Pignatari Produsumo. Ainda recorremos a veloz linguagem de quadrinhos e desenho animado: Pluft, pluft, pluft por Grandhi, um amigo que estava sempre com a gente e dizia: “Vocês são pluft, pluft, pluft”.

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