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Posts Tagged ‘Jorge Amado’

Dias antepassados, revirando memórias juazeirenses, terra que compartilho com o amigo João Gilberto e em confabulação com Ruy Carvalho lembrando da musica Undiu ,cânticos da lavadeiras do rio São Francisco trazidas pelo mestre Joãozinho, lembramos que ela possui também uma letra de uma brilhante parceria,”Lamento de Marta”  que podemos ouvir  na trilha do “Seara Vermelha”
com o maior dos nossos escritores o Jorge Amado, pai de Paloma e João Jorge, avo da irma e amiga Maria João, e ficamos matutando a historia postada e sacramentada nos finitos internet alcance nosso; mas como tudo esta no ar eis que não mais que de repente, não e poetinha Vinícius de Moraes? Paloma captou e nos conta a historia completa mistérios da inspiração.

Feliz aniversario, Joaozinho

por Paloma Jorge Amado, sexta, 3 de junho de 2011 às 23:37

Conheci Joao Gilberto quando era bem menina, foi meu amigo de infância. Nunca mais o vi, tenho saudades todos os dias. Queria homenagea-lo nos seus 80 anos, e para isso fui buscar as palavras de papai e a foto que mamãe tirou no seu casamento com Astrud, do qual foram padrinhos. Com a palavra, o amigo Jorginho:

 

Fomos padrinhos, Zélia e eu, do casamento de João Gilberto com Astrud, o casal se separou nos Estados Unidos para onde Joãozinho viajara a fim de participar de um show, obteve tamanho sucesso que ficou por lá anos a fio.

No dia de seu embarque, indo para o aeroporto passou por nosso apartamento para o abraço de despedida, vestia roupa leve, própria para o verão carioca, em New York a crueza do inverno era manchete nos jornais. Ao vê-lo tão desagasalhado retirei do guarda-roupa um sobretudo usado: vista-o ao desembarcar do avião senão vai morrer de frio, pegar pneumonia. Essa a minha contribuição para o êxito do cantor nos States, o sobretudo que o salvou da pneumonia dupla.

Contribuí também para seu casamento com Miúcha: do primeiro matrimônio fui testemunha, no segundo funcio­nei de casamenteiro. Um dia recebi na Bahia telefonema de Joãozinho, ligava de New York, aflito como sempre, não mudara, continuava o mesmo:

Jorginho, você é muito amigo de Sérgio Buarque de Holanda, não é?

Sou, sim, Joãozinho, por quê?

Figura das mais fascinantes da comparsaria intelectual, Sérgio concedeu-me o privilégio de sua intimidade, coloquei-o de personagem em O Capitão de Longo Curso, assim homenageio aqueles que mais estimo e prezo, pondo-os nas páginas de meus romances. Na época do telefonema o mestre historiador se vanglóriava de ser o pai de Chico Buarque, compositor que estourara nas paradas de sucesso.

Jorginho, estou apaixonado pela filha dele, a Miúcha, irmã do Chico. Miúcha anda por aqui, ela também gosta de mim, queremos nos casar mas temos medo que Sérgio se oponha, você sabe como é, deve ter ouvido horrores a meu respeito. Queria que você falasse com ele, pedisse a mão de Miúcha em casamento, para mim. Diga a ele que não sou tão ruim como dizem por aí.

Habituado a me envolver com a vida de Joãozinho, prometo interferir —depressa, daqui a uma hora telefono de novo para saber o resultado. Desligara agoniado, eu ainda procuro o número de Sérgio no caderno de telefones, Joãozinho volta a ligar: eu ‘tava tão vexado que não mandei um beijo para Zelinha. Vexado, Joãozinho.

Disco o número paulista, Amélia atende, trocamos gentilezas, desejo falar com vosso ilustre consorte, Sérgio vem ao telefone, sabendo que sou eu começa a imitar sotaque holandês, é de morrer de rir mas eu me ponho sério para lhe informar:

Te telefono para pedir a mão de tua filha Miúcha em casamento.

Hem? Que história é essa? — abandona o acento batavo, coloca-se em posição de defesa, que peça estou querendo lhe pregar?

Não é para mim, é para João Gilberto, estão apaixonados, querem se casar, ele pediu que te dissesse que não é tão ruim assim, tão má pessoa como consta por aí, não deves acreditar nas más línguas…

Que me contas? É brincadeira ou falas a sério?

Falo a sério, relato a conversa de Joãozinho, telefonema em dólares de New York, repetida, esquecera o beijo para Zélia. Empolga-me a paixão dos dois  cantores, coisa linda, faço o elogio do candidato a genro e o faço com amor. De Joãozinho sei o direito e o avesso, do menino de Juazeiro nas barrancas do São Francisco ao músico ainda desconhecido, lutando no Rio em dias de aperto, sou seu parceiro, fiz a letra do Lamento de Marta. Quando solteiro, Joãozinho aparecia à noite no apartamento da Rodolfo Dantas, trazia o violão, ficava até a madrugada, cantando. Acontecia que Zélia e eu, cansados, íamos dormir, Joãozinho prosseguia em companhia de João Jorge, menino ainda, privilegiado. João Gilberto tocava, cantava, tendo como ouvintes apenas o moleque e o pássaro sofrê: vivia solto na sala e assobiava as músicas que Joãozinho dedilhava ao violão.

Sérgio escuta em silêncio minha lengalenga, a proclamação das virtudes de Joãozinho, gênio musical, amigo terno, pessoa amorável. No dia seguinte toma o avião para New York, vai estudar o assunto in locum, apaixona-se pelo candidato, só podia acontecer. Para terminar, um post-scriptum: já levava João Gilberto vários anos residindo nos Estados Unidos quando um dia apareceu-me em casa um portador trazendo encomenda enviada pelo músico: um sobretudo novo em folha, soberbo, eu o usei longo tempo, ainda o tenho. Ou será que o dei a João Jorge, o ouvinte solitário, o privilegiado? (Navegação de Cabotagem, Jorge Amado

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Não se pode falar da passagem do rio S. Francisco em Juazeiro sem incluir Petrolina. As duas cidades formam mais que um par romântico, seja na dança clássica, na gafieira ou na poeira de um terreiro de forró; seja como uma dupla arrasadora de área, no bom sentido de ataque ao gol, ou até como um casal dito perfeito de mãos dadas ao luar. Vejo-as dois pensamentos diversos, dois ângulos opostos de um mesmo vértice. Distintas são, cada uma no seu argumento, no seu talento. Juazeiro ganha em arte, é claro, porque deu João Gilberto; e Petrolina, em progresso, pela organização de seus construtores. Ë o lazer e o trabalho se completando. Memória e pensamento habitando a mesma cabeça. Como hoje é sabido, lazer é trabalho feito para divertir, vira combustível para sensibilizar corações, da mesma forma que trabalho vira lazer quando se faz o que se gosta. E é aí que as duas cidades completam a paisagem que margeia o rio em cujas águas João Gilberto nadou entre os peixes, atirou pedrinhas em sua superfície e colheu inspiração para a música Undiú.

O título original de Undiú é Lamento da Morte de Dalva na Beira do Rio São Francisco, em Juazeiro. Foi composta no final dos anos 50 para integrar a trilha-sonora Seara Vermelha. O filme, baseado no romance de mesmo título de Jorge Amado, foi dirigido por Alberto D’Aversa em 1963. D’Aversa, um italiano que se radicou em São Paulo e trabalhou no Teatro Brasileiro de Comédia, chamou o maestro Moacir Santos para fazer a trilha-sonora. Ele pôs Lamento da Morte de Dalva no filme, João Gilberto a gravou, com o título de Undiú, no seu álbum de 1973. Eu estava la de olho acompanhando o elenco hospedado no predio dos correios.

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