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Archive for Novembro, 2010

  • Lucas Nobile – O Estado de S.Paulo

Considerado por muitos como um dos discos mais importantes da música popular brasileira, Acabou Chorare, dos Novos Baianos – que chega amanhã às bancas em relançamento pela Grande Discoteca Brasileira Estadão -, esteve perto de ser um dos grandes fiascos da história.

 

Em 1972, três anos depois de seu disco de estreia, Ferro na Boneca, o grupo baiano já havia deixado sua terra natal para se instalar em um apartamento em Botafogo, no Rio. Em solo carioca, por precipitação – e falta de tato -, quase viram aquele que se tornaria seu álbum antológico ser arruinado. Por sugestão de Nelson Motta, eles gravaram todas as faixas de Acabou Chorare, na casa de Jorge Karan, apenas em dois canais, com poucos instrumentos, de maneira rasteira. A gravadora queria lançar o disco mesmo assim, mas Os Novos Baianos bateram o pé. “Nós não gostamos do resultado, não aceitamos que fosse lançado daquele jeito e rompemos com a Polygram. Aquilo ia estragar o disco. Aí, o pai do Cazuza (João Araújo), que era dono e diretor da Som Livre, nos ofereceu a produção digna que o álbum merecia”, conta Luiz Galvão.

O encarregado da tarefa foi Eustáquio Sena, figura importante para viabilizar toda a loucura inventiva proposta pelo grupo na realização do LP, extremamente moderno até hoje. Atualmente, bandas tentam imitar, mas não passam nem perto da criatividade e da pegada de Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby do Brasil, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Jorginho Gomes, Dadi Carvalho, Baixinho e Bolacha.

O toque de João. Com arranjos de Pepeu Gomes e Moraes Moreira, e os temas assinados por Galvão (todos em parceria com Moreira, além de Paulinho Boca de Cantor, em Swing em Campo Grande, e Pepeu, em Besta É Tu), com exceção à faixa que abre o disco, Brasil Pandeiro (de Assis Valente), Acabou Chorare tinha tudo para seguir a mesma linha de Ferro na Boneca. “Nós vimos o tropicalismo de Gil e Caetano e acreditamos que era possível criar algo novo”, diz Galvão.

A novidade citada foi composta por ele e por Moreira a toque de caixa. Eram temas como Tinindo Trincando, Besta É Tu, Bilhete pra Didi, A Menina Dança e Mistério do Planeta.

Além da onda tropicalista, a grande influência foi exercida por João Gilberto. “Em 1972, ele havia chegado dos Estados Unidos e eu levei Baby, Moraes e Paulinho para conhecerem o João. Ele deu dicas de respiração e disse que a gente precisava voltar para o caminho de casa”, lembra Galvão, referindo-se ao conselho para que fizessem um disco menos roqueiro do que Ferro na Boneca e mais brasileiro.

O título da música, que também batiza o LP, carrega a famosa história contada por João após o fim do berreiro de sua filha Bebel Gilberto. O que pouca gente sabe é a origem do tema. “Eu estava com nosso agente e uma abelha sentou na minha mão. À noite, outra abelha pousou novamente em mim e eu disse: “essa abelha já esteve comigo hoje”. Todo mundo pensou que eu estava louco. Liguei para o João. Contei a ele, que também estava falando sobre abelhas com o Capinan. Eu disse: “ela faz mel”. Ele respondeu: “e zum-zum”. Pedi permissão e incluí na música”, conta Galvão sobre a inspiração viajante.

OS NOVOS BAIANOS
ACABOU CHORARE
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Três apresentações marcadas no Teatro do Sesc Casa do Comércio, em Salvador, berço dos Novos Baianos, nos dias 26, 27 e 28 de novembro. Os shows tem participação especial de Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo, vocalista dos Novos Baianos e madrinha do Quebra-Cabeça) e do compositor Galvão, representando a banzda inspiradora, além do cantor e compositor Luís Melodia, e serão gravados para um futuro DVD ao vivo.

A banda paulistana Quebra-Cabeça pode dizer que, além de influência, os Novos Baianos estão no seu DNA, pois três dos seus integrantes são filhos de membros dos Novos Baianos, e um é afilhado do letrista Galvão. Os percursionistas Luam e Tom Morais são filhos de Bola Morais, que fez percussão no lendário grupo baiano, e o baterista Rafael Dolinski também seguiu os passos do pai Baixinho, dono das baquetas nos Novos Baianos. O guitarrista Peu Sousa tocou com o padrasto Galvão e com outro novo baiano, Moraes Moreira, além de tocar no disco Admirável Chip Novo, da cantora Pitty.

O primeiro disco do Quebra-Cabeça, Tudo Pode, que faz parte do projeto “Aos Nossos Pais”, é autoral, com faixas inéditas, mas traz embutida a ideologia por trás dos Novos Baianos, que muito antes da palavra “coletivo” virar moda, levava o conceito ao pé da letra, vivendo, compondo e tocando juntos em um sítio de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. A capa do disco é de Antonio Peticov, artista plástico identificado com o tropicalismo, e a referência direta ao Novos Baianos é a inclusão da música Colégio de Aplicação em uma das faixas de Tudo Pode.

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tinindo trincando

O maior entre os grandes discos nacionais de todos os tempos, a obra-prima Acabou Chorare é fruto de uma experiência coletiva e livre, que tem no samba e no rock suas mais fortes raízes

POR CRISTIANO BASTOS
FOTO: PEPEU GOMES/ARTE: LULA MARTINS

EM 1883, O PATRIARCA DA INDEPENDÊNCIA José Bonifácio de Andrada e Silva declarou que a crucial diferença entre o Brasil e os outros países cabia em uma única palavra: “amálgama”.
No entendimento de Bonifácio, o DNA cultural da nação estaria profundamente amalgamado. Os demais povos teriam “diversidade”.

A profusão verde-amarela também é perfeita para entender as razões da atemporalidade do álbum Acabou Chorare, gravado há 38 anos pelos Novos Baianos. Em votação feita com especialistas, em 2007 a Rolling Stone elegeu o disco “o maior da música brasileira de todos os tempos”.

Este ano, lançamentos videnciarão o “bando” que, no fundo, nunca se desfez, e arrebatarão velhos e novos fãs com gravações, filmes e livros. Todos com força para novamente erigi-los ao panteão da memória musical brasileira – da qual, na verdade, nunca foram deletados.

A mais aguardada novidade é o documentário Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas.

A produção focaliza a interferência “divina” de João Gilberto, “produtor espiritual”, parafraseando o novo baiano Moraes Moreira, sobre os rumos da banda. E, por outro ângulo, enquadra o segundo capítulo desse encontro que resultou na obra-prima Acabou Chorare.

Na última edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o documentário amealhou o Prêmio do Júri Popular e, neste ano, ganha os cinemas nacionalmente. Jorge Mautner saúda o poderoso amálgama de Acabou Chorare como “o segredo brasileiro”.

Moraes, um dos fundadores, endossa: “Os Novos Baianos só foram possíveis por causa da congregação de pessoas. A união fez a música”, abrevia o “vaqueiro do som”, apelido dado pelo preceptor João Gilberto. Conterrâneo, o múltiplo Tom Zé foi outro deles.

Antigamente, explica Mautner, quando o Brasil ainda não havia descoberto sua identidade cultural, comentava- se que o país fora amaldiçoado por “três raças tristonhas” – negra, indígena e lusitana. Hipótese que, obviamente, ele refuta.

Mas ufaniza:

“Os brasileiros são a etnia mais otimista e alegre do planeta!”. Distante daqui, outros pensadores deram-se conta da “verdade tropical”.

No século 19, o poeta norte-americano Walt Whitman professou que o Brasil seria o “vértice da humanidade” – probabilidade que, a história prova, não passou batida pelo olhar de gênios pátrios da estatura de Villa-Lobos, Mário de Andrade e Ary Barroso.

O amálgama também seduziu outros menos bem-sucedidos, mas banhados em criatividade. Caso do grande compositor, e exímio fracassado, Assis Valente. Em 1940, o carioca teve destreza para criar o samba-exaltação “Brasil Pandeiro” (que prefacia Acabou Chorare) e, inversamente, autenticar a “valentia” sugerida por seu sobrenome.

Endividado, Valente suicidou-se ingerindo uma dose de guaraná e formicida. Até na escolha do veneno celebrou amor à pátria. Assis Valente vende o país como ninguém nos versos de “Brasil Pandeiro”:

“O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada”.

Dá para dizer que cada um dos “lados” do LP Acabou Chorare foi arquitetado em endereços distintos. O A no apartamento em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde os Novos Baianos aquartelavam-se; e o B no sítio-comuna alugado em Jacarepaguá, Zona Oeste.

Na plaqueta em formato de bandeira do Brasil afixada na porteira do sítio, onde se deveria ler “Ordem e Progresso” estava escrito “Cantinho do Vovô”. De 1971 a 1975, o combo se resguardou das agruras militares no retiro que também foi lar, estúdio e campo de futebol – três das coisas que mais interessavam a todos ali conjugados.

No Cantinho do Vovô, o samba cinco estrelas dos Novos Baianos pulsava suave, contente e distorcidamente roqueiro.

Acabou Chorare deu o pontapé inicial (verdadeiro “gol de placa”) no cast da recém-criada gravadora Som Livre, fundada pelo produtor João Araújo, também conhecido como pai do astro Cazuza.

As gravações deram- se no estúdio fluminense Somil, especializado em áudio para cinema. Como “centroavantes”, o time que tocou no álbum reunia Moraes Moreira (violão-base), Paulinho Boca de Cantor (vocais e pandeiro) e Baby Consuelo (afoxé, triângulo e maracas).Luiz Galvão era o “médium” que decodificava a loucura coletiva em poesia.

Esses quatro são o núcleo-base da banda reunida em Salvador, em 1969.

A armada baiana também arregimentava outros guerrilheiros. O sólido “wall of sound” dos Novos Baianos era cimentado pelo conjunto A Côr do Som, cuja batuta pertencia ao guitarrista Pepeu Gomes.

Em parceria com Moraes, Pepeu cinzeleva os trançados arranjos das canções, além de cuidar da afinação de todos os instrumentos.

A tripulação completava-se com Jorginho (bongô e cavaquinho), Baixinho (bateria e bumbo), Dadi (baixo) e Bolacha (bongô), recentemente falecido. Ainda juntavam-se a eles o dançarino Gatto Felix e o percussionista Charles Negrita.

Joia do neologismo brasileiro, a expressão “Acabou Chorare” foi cunhada pela então criança, hoje a internacional cantora Bebel Gilberto, filha de João Gilberto e da compositora Miúcha. O novo vocábulo, literalmente, “caiu de maduro”.

Encerrada longa temporada entre México e Estados Unidos, o bossa-novista declarara chega de saudade” e regressara ao Brasil. A pequenina Bebel ainda se confundia com a indefinida fluência entre três idiomas: inglês, espanhol e português.

A frase escapou após a arteira menina ter se espatifado no chão batido do Cantinho do Vovô. A infante abriu o berreiro. O zeloso pai levava um som com os pupilos e na hora largou o violão para acudi-la.

Bebel notou a preocupação do pai. Para deixá-lo tranquilo, soltou frase singela que a todos enfeitiçou:

“Não machucou papai, Acabou Chorare.”

Os músicos apaixonaram-se de cara tanto pela poética como pela fonética da sentença, quase um slogan “Na minha cabeça, até hoje Acabou Chorare é um disco que foi ‘feito pra mim'”, segreda Bebel.

A madrinha Baby Consuelo lê o significado da frase vinculado ao cerco político repressor daqueles dias. “Esotericamente saídas da boca de uma criança, tais palavras nos mostravam que chegara a hora de acabar com o choro. Tínhamos lacrimejado demais. Queríamos o Brasil alegre de volta”, metaforiza Baby.

Com raras exceções, em 1972 as condições técnicas dos estúdios brasileiros sofriam de crônica anemia. O registro de Acabou Chorare, porém, fluiu sintonizado no alto-astral do Cantinho do Vovô. João Araújo destacou o músico Eustáquio Sena para produzir a “bolacha”, mas ele próprio acompanhou de perto todo o processo.

As sessões foram tramadas em quatro diminutos canais – quase insignificantes, se comparados ao suntuoso padrão atual. Em estúdio, não se permitia errar. Sempre o lema: acertar. Primeiramente, os fonogramas eram gravados em quatro canais, os quais depois eram reduzidos para dois.

Por último, eram inseridas as vocalizações na máster mixada.

“Se um marcava bobeira todos tinham de re petir o take. Só que estávamos pra lá de ensaiados. O repertório ‘tinia e trincava'”, graceja Paulinho Boca de Cantor, para o qual a artesanal metodologia deu ao disco a sensação de “quentura”, como se gravado ao vivo.

Moreira é certeiro: “Parecia que a gente tinha ensaiado a vida toda”.

Araújo foi majoritário responsável pela confecção de Acabou Chorare (cuja gravação chegou a ser cogitada em dois canais) em quatro pistas – o que, no fi nal, mudou a história da obra por completo.

O disco foi gravado no estúdio carioca Somil, especializado em áudio para cinema. A nascente Som Livre, na época, ainda não tinha estúdio próprio.

Araújo previu o fatal sucesso dos hoje clássicos “Besta É Tu” e “Preta Pretinha”. Animava a todos dizendo: “Será nossa consagração! Venderá mais de 100 mil discos”, recorda Boca de Cantor. “Preta Pretinha” foi a primeira a vazar e também a estourar.

Semanas antes de ser lançada, a canção ensejava o frêmito que viria a se tornar.

“Algumas pessoas tinham assistido nossos ensaios abertos e a disseminaram”, conta Paulinho. E não deu outra: “Preta Pretinha” foi arroubo instantâneo. Glória maior só logrou “Acabou Chorare”.

A faixa-título estacionou no dial das rádios e por lá ficou 30 semanas entre as mais executadas. Em 1972, a nova bossa dos baianos era a mais ouvida de norte a sul.

A Som Livre estreou seu cast (que, entre outros artistas, abrigou Tim Maia e Rita Lee) com a contratação dos Novos Baianos. Tudo começou com um telefonema de Caetano Veloso. O baiano ligou à tarde recomendando seus conterrâneos e, na mesma noite, a turma baixou na residência do produtor:

“Pepeu, Moraes, Paulinho e Baby Consuelo, toda de branco e com a cabeça enfeitada por um retrovisor de Fusca. Parecia uma ‘Mãe-de- Santo da Volkswagen’”, diverte-se Araújo ao reviver o frutífero encontro.

Contando 7 anos de idade, Cazuza ficou fascinado com a extravagante estampa dos Novos Baianos. “Cazuza ia ao refrigerador e buscava comida pra eles”, conta o pai. Baby conclui:

“Ele [Cazuza] deve ter oferecido a geladeira inteira pra gente”. Futuramente, Cazuza revelaria que fora essa a primeira vez que pensara em ser artista.

Nessa fatídica noite, a animada (e esfaimada) caravana levantou acampamento na residência do mecenas Araújo. Vararam a madrugada cantando e proseando. Moraes pegou no violão e não soltou mais, o produtor recorda.

Os quatro baianos sacaram a recém-composta “Preta Pretinha” e a apresentaram.

“Desfilaram uma porção de canções e entendi que sobrava originalidade. Muito ‘porra-louquismo’, sim, mas com carisma e apelo irresistíveis. O repertório era todo comercial, cantável e variado”, elogia.

Começava aí a “Invasão Baiana”.

Acabou Chorare foi a bomba-relógio com data marcada para eclodir em matizes verde-amarelas naquela alvorada cinzenta de 1972. A trupe inteira envolveu-se efusivamente no entrelaçamento do artefato.

Burburinhos sobre sua inevitável explosão corriam pela cidade. Repórteres eram destacados ao estúdio Somil com a missão de desvendar a causa de tanto falatório em torno daquele “bando de freaks”.

Detalhe importante: o vinil foi trabalhando às altas horas da madrugada, o que só amplia o seu esoterismo. A “orquestra” baiana ingressava no estúdio à noite e saía apenas ao raiar do dia.

Os inúmeros e imprevisíveis contratempos, os Novos Baianos sublimavam com os melhores predicados trazidos por cada um deles: criatividade, inventividade, engenhosidade.

O engenheiro de áudio João Kibelkstis (que gravou o LP Força Bruta, de Jorge Ben) recorda que, em 1973, os Novos Baianoinauguraram o gravador Scully oito pistas recém-comprado pela Continental, major onde editaram o disco seguinte, Novos Baianos F.C.

O experimentado engenheiro afirma que oito ou mais canais não faziam diferença. “A expertise com gravações diretas era um grande trunfo que tinham.” Moraes Moreira diz que nem queriam saber: “Nosso lance era tocar”.

Kibelkstis vem com o irrefutável ensinamento: “Máquinas serão sempre acessórios”, prega o homem que cuidou das intocadas vozes de Nelson Gonçalves e de Orlando Silva.

Todavia, a aberrante distorção evitada pelos técnicos de som da velha guarda, justamente, era um dos efeitos perseguidos pelo hábil guitarrista Pepeu Gomes. Para obtê-la, lançava mão de muita “maluquice e pesquisa”.

A Gianinni Supersonic de Pepeu fende suas bem-vindas distorções em números mais nervosos de Acabou Chorare, como “Mistério do Planeta” e “Bilhete pra Didi” (do irmão Jorginho Gomes).

Embora careta, o engenheiro e amigo Paulo César Salomão materializava os loucos insights do guitar hero. Pepeu o exortava: “Quando tocar meu som no rádio quero que digam: ‘É a guitarra do Pepeu!'”

Diligente, Salomão varava madrugadas estudando eletrônica. Seu mérito deve ser reconhecido: são as pequenas filigranas que qualificam a alta envergadura desta obra. Ainda não havia recursos para comprar peças novas para a guitarra.

Salomão melhorou o som da Supersonic entalhando o instrumento, dentro do qual acoplou capacitores removidos do televisor (não assistido) que a família tinha no sítio. As façanhas obtidas com o “truque do televisor” estão premidas na abelhuda estridência de faixas como “Bilhete pra Didi” e, especialmente, no solo hendrixiano de “Mistério do Planeta”.

O popular alarido de Acabou Chorare catapultou os Novos Baianos às massas. Aos borbotões, convites de emissoras de TV desaguavam no Recanto do Vovô. Desde os populares Fantástico e Chacrinha, estrelaram os programas mais apurados, como o Ensaio, na TV Tupi.

Os brasileiros ansiavam “ver” as súbitas vozes cuja musicalidade irradiava para a intimidade de seus lares. O interesse também foi internacional. Em 1973, no auge da fama o diretor Solano Ribeiro filmou o televisivo Novos Baianos F.C. Realizado sob encomenda da TV alemã, o especial foi premiado no Festival Europeu de Televisão, na Áustria.

Fora a elementar síntese de rock, samba e brasilidades afins (inconcebível há 38 anos) alinhavada em Acabou Chorare, outra saliente presença é a do samba de roda alforjada por Moraes Moreira de sua Ituaçu, no interior baiano.

“Eu trazia a influência do rádio, das serenatas, das bandas marciais e do alto-falante”, ele pontua.

Para Tom Zé (mestre que, em Salvador, transmitiu a Moraes suas primeiras lições de violão), o regional atuante por trás de todo Acabou Chorare nada mais é do que “samba de roda elevado à categoria de erudito”.

Antes de prosseguir na afortunada trip que foi a concepção de Acabou Chorare convém brevemente, deter-se na enxuta discografia da banda até então. Em 1969, colheram alguns louros com o LP É Ferro na Boneca!, cuja música-título tocou bastante nas rádios.

Também editaram os compactos simples Colégio de Aplicação (1969) e Volta Que o Mundo Dá (1970). No mesmo ano, ainda lançaram o duplo contendo as faixas “Psiu/29 Beijos” e “Globo da Morte/Mini Planeta Íris”, embrionária da mística “Mistério do Planeta”.

Em 1972, a capa de Acabou Chorare recebeu prêmio de melhor produção gráfica do ano. A arte leva assinatura de Antônio Luis Martins, mais reconhecido como “Lula”, protagonista do cult-movie Meteorango Kid – Herói Intergaláctico (1970), de André Luiz de Oliveira.

A produção de Meteorango emaranha-se aos primórdios soteropolitanos do grupo. Na RGE, o artista fizera a capa do compacto Os Novos Bahianos. Para Acabou Chorare, desenvolveu uma técnica de desenhos à base de canetas hidrocor e esferográficas.

Lula afirmava pintar “a cor do som”.

Questões financeiras, porém, reduziram o número de fotos coloridas, o que veio a alterar o projeto originalmente concebido. “Mais tarde observando vi que os retratos em preto e branco acentuavam o grafismo da arte.”

Outra feita por Martins é a surrealística capa do álbum Caia na Estrada e Perigas Ver, de 1976. ]

As letras de Acabou Chorare são caso – ou capítulo – particular. A começar pelo resgate, sugerido por João Gilberto, de “Brasil Pandeiro”. O grande sucesso “Preta Pretinha” surge duas vezes no LP. A primeira versão tem seis minutos de duração, e a segunda, editada pela Som Livre, pouco mais de três minutos.

“Por fim, a mais tocada foi a mais extensa”, observa Moraes Moreira. Nos shows, entrava emendada num pot-pourri que tinha “29 Beijos” e “Oba-Lá-Lá” – pinçada de Chega de Saudade, disco de 1959 do paterno João Gilberto.

“Tinindo Trincando” e “A Menina Dança” possuem valor pessoal para sua intérprete, a niteroiense Bernadete Dinorah de Carvalho – eterna Baby Consuelo. Luiz Galvão, o “interlocutor”, as escreveu sob medida para ela. Com seu “nariz arrebitado”, Baby refresca-nos a memória:

“A letra diz que ‘estava tudo virado’ e que cheguei ‘após esgotar o tempo regulamentar’. Significava que no tempo em que cantoras fabulosas, como Elis Regina e Gal Costa, bombavam eu trazia meu estilo particular”, desvenda.

Esbanjando brejeira brasilidade, aflorada de seu ousado jeito de ser – aliada ao rock e ao blues (do qual evocava o canto spiritual de Janis Joplin) -, Baby Consuelo é uma das fêmeas que fincaram as bases do “rock brasileiro”. A outra é Rita Lee.

No caso dos Novos Baianos, Baby também “deu a luz” (maternidade é outra especialidade sua) ao “rockarnaval” – oficial insígnia da banda.

Nos bastidores, borbulham causos sobre a criação do repertório letrístico, muitas vezes cifrado, de Acabou Chorare. “Swing de Campo Grande”, assinada por Boca de Cantor, é uma delas Ele conta que, na temporada chumbo-grosso da ditadura, os militares imaginavam que eles fossem “terroristas fantasiados de hippies”.

“Praticamente começaram a nos caçar”, ele diz. Em seu bojo, a letra, que carrega forte carga mística, tem a ver com o contexto militar. Naqueles dias, Boca de Cantor conheceu um rezador que lhe aconselhara “tranquilidade” nas horas difíceis.

“Ele dizia: ‘Vocês [Os Novos Baianos]são gente legal. O mal não colocará seus olhos em vós’. Nossos perseguidores não nos veriam”. Foi então que o místico ensinou a simpatia que foi parar na letra da canção:

“Quando receberem mal-olhado virem ‘toco’, virem ‘moita'”.

O macete, conforme Paulinho, funcionava tão bem que eles ficaram cinco anos sem pagar o IPVA do automóvel. “Passávamos pelos postos da Polícia Rodoviária e olhávamos para nossas próprias línguas.

Ele nos ensinara que se olhássemos para nós mesmos ninguém nos veria.” A música é sobre invisibilidade, portanto.

Por mais inverossímel que seja crer, as substâncias não foram uma obsessão essencial nesta mágica história. Mas também foram importantes, sobretudo, poética e ludicamente. Moraes conta que banda e agregados disputavam acirradas partidas de futebol (dentro do apartamento) loucos de ácido.

Pepeu revela, no entanto, que outras muitas situações psicodélicas foram vivenciadas “de cara”.

“A gente tocava no galinheiro, debaixo da árvore. Achávamos que a árvore falava conosco. Nada a ver com drogas. Era feeling. Batíamos na árvore para testar o som. Víamos a natureza em forma de letras e de notas musicais”, o guitarrista tenta explicar.

Na opinião de Moraes, o mantra “Besta É Tu” é a toada com maior carga lisérgica de Acabou Chorare.

“O ‘besta é tu’ é um ritmo baiano do interior repetido à exaustão”. Pegamos emprestado do cancioneiro popular. A gente tomava LSD e desatava a tocar o ‘besta é tu’ interminavelmente”, conta Moraes. Galvão, atualmente, afirma estar “pianinho”.

Abandou as diversões perigosas: “Hoje em dia, só bebo suco de uva”. A ministra evangélica Baby (do Brasil) quer mais é distância de tentações. A heavy “Barra-Lúcifer”, do álbum Caia na Estrada e Perigas Ver, ela jura nunca mais cantar em sua vida.

Confesso apreciador de Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, Galvão censura a “fábula” representada no filme, segundo a qual João Gilberto teria “batido à porta” do apartamento dos Novos Baianos, em Botafogo.

Ele contesta a verossimilhança do fato narrado pelo baixista Dadi.

Originalmente, a infeliz versão não partiu do baixista: foi disseminada em 2000 no livro Noites Tropicais, de Nelson Motta. Conterrâneos de Juazeiro, João e Galvão (sem o qual a banda jamais teria arranjado o encontro) são velhos e íntimos amigos.

Galvão chama a versão contada por Motta de fantasiosa:

“Uma noite eles [Novos Baianos] receberam uma visita surpreendente, mas esperadíssima. Antes levaram um susto: o baixista Dadi, de 19 anos, foi abrir a porta e, quando viu aquele senhor de paletó e óculos, muito sério, virou para dentro e avisou: ‘Ih, pessoal, sujou! Acho que é cana’. Mas não era: João Gilberto foi recebido como um Messias no apartamento-comunidade de Botafogo”.

“Me decepcionei com Nelson Motta”, desabafa Galvão. Dadi não lembrou que, no fatídico dia suposto por Motta, quem batera à porta fora Roberto, filho de Dona Helena, dde quem a banda fora inquilina em 1971.

Galvão conta que Roberto era careta antes de conhecê-los. Convivendo com eles, entrementes, convertera-se ao “maconheirismo”. “Roberto entrou e logo tacou fogo num baseado. Nem viu que João encontrava-se no recinto. João olhou para Roberto e falou mansamente:

‘Quer um chiclete, Roberto?’

Ele devolveu surpreso: ‘Hoje ganhei o meu ‘chiclete’. Conheci João Gilberto'”, o poeta remonta.

Galvão assevera: João Gilberto jamais apertou a campainha de ninguém e nunca comunicava suas idas ao apartamento. O contato, segundo Pepeu, dava-se telepaticamente. João ficava plantado debaixo do prédio e os baianos tinham de se revezar para não deixá-lo partir.

“Quando alguém o avistava era soado o alerta geral: ‘O João está lá embaixo!’ Descíamos para capturá-lo.”

Baby Consuelo usa de feminilidade para descrever o primeiro encontro. Os vizinhos nem sonhavam com a presença celeste do músico no edifício. Para não perturbá- los com o som que entraria noite adentro, Baby teve a ideia de desmontar um profundo armário embutido que havia em seu quarto e de Pepeu (à época casados).

No interior do cômodo, estendeu floreados edredons.

“Montei no apartamento uma enorme tenda que virou nosso ‘palco'”, ela detalha. Esparramados em volta do Criador, o apostolado baiano ouviu João Gilberto rezar sua missa. A liturgia iniciou com “Brasil Pandeiro”, que, de cara, fez crepitar a brasilidade no coração dos “escolhidos”.

Foi a primeira das muitas parábolas que desembainhou para acertá-los.

“O conselho de João era apenas um: que nos voltássemos para dentro de nós mesmos para despertar o adormecido gene brasileiro. João mostrou-nos um Brasil bonito e iluminado. Brasil de Herivelto Martins, Noel Rosa e Jackson do Pandeiro.”

Após o sobrenatural, assumiram de vez o samba, a bossa nova e o carnaval.

“Passamos a tocar samba como se fosse rock.”

De 1969 a 1979, profundos valores de amizade e de respeito mútuo amalgamaram-se numa entidade musical única chamada Novos Baianos, a qual vive até hoje.

A verdadeira alegria de estarem tocando irmanados impressionou o bandeonista argentino Astor Piazzolla, que os conheceu dos tempos dos Festivais Internacionais da Canção da Rede Globo. O argentino dissera jamais ter visto tantos músicos juntos tocando tão contentes.

A felicidade da qual falava Piazzolla é a mesma eternizada nos impecáveis 36 minutos da obra máxima dos Novos Baianos: Acabou Chorare.

É justo saldar débito histórico com o concretismo, vanguarda poética chefiada, no Brasil, pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Augusto de Campos redigiu o texto de apresentação de Acabou Chorare (e também do álbum É Ferro na Boneca!) – no qual entreviu:

“O dom eles tinham. Agora o som mais perto, mais esperto, mais certo. Descobriram o silêncio”.

Anos antes, o russo Vladimir Maiakovski, pai do concretismo, evocara milenar presságio sobre um paraíso oculto nos trópicos: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”.

Ainda hoje, Augusto de Campos ecoa a sentença grafada há 38 anos sobre os Novos Baianos: “As cartas ainda estão na mesa”.

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