
Rio Sao Francisco, Foto de Euvaldo Macedo
Foi dentro daquele momento de inspiração que nasceu também Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora, quando por minha cabeça passaram reminiscências da minha infância lá em Juazeiro da Bahia minha terra natal mas, o sentimento que comandou o enredo da letra veio fruto da minha rebeldia, que começara em Juazeiro nas minhas rusgas com os moradores que ficavam P da vida ao ver suas ruas transformadas em campos de peladas e pelas boladas nas janelas de suas casas, algumas acidentais e outras propositais. Calma os leitores não baianos! Pelada de rua, além de rimar pode significar mulher nua, mas no caso trata-se de futebol na praça. Essa língua portuguesa é que tem dessas: manga deliciosa fruta, manga da camisa, a pessoa que manga dos outros quando debocha. Existem algumas outras palavras que têm vários significados. Os cariocas, talvez por isso, chamem de baba o futebol praticado no meio da rua e nós baianos, soteropolitanos ou nativos do interior dizemos pelada, mas deixemos de divagações e voltemos a nossa guerrinha com a vizinhança da minha infância que não era fria nem quente, classifico-a como morna, porque os moradores embora insatisfeitos, não se manifestavam por estar sempre sujeito a existência de um menino parente participando daquelas peladas, porém o inimigo era um soldado enorme, conhecido como Carrasco, o qual cismava com nosso jogo no meio da rua, e tentava acabá-los mas, a meninada o colocava no “bobinho”, só que não podíamos dar o mínimo vacilo, porque ele na nossa frente furava com seu sabre a inocente bola, e vocês não imaginam a fúria do Carrasco estraçalhando-a. Doía tanto em nossos corações meninos e calouros, ao ponto de sentíamos até o sangue sair da bola, junto com o ar.
Nas festas juninas de São João e São Pedro, meus pais, nos fins de semanas e nas férias me levavam para Carnaíba, distrito de Juazeiro da Bahia, onde morava meu avô materno Pedro Dias, e num daqueles São João quando eu já estava com quinze anos, fui premiado com a resposta da vida.
Alguém jogou um busca-pé que veio na minha direção e, quando quase me alcançava, escondi-me atrás do Carrasco, segurando-o, enquanto o busca-pé queimava a sua farda, descontando a dor da bola e da meninada. O Carrasco só não me jantou porque em Carnaíba só tinha dois soldados, e da minha família estavam ali mais de trinta. O homem ficou vermelho mais que a chama da fogueira, e quis me pegar mas, foi impedido por meu pai que além de vereador tinha fama de valente, embora não me lembro de tê-lo visto brigar nem de boca quanto mais na mão. O Carrasco teve que engolir calado o sermão de meu velho com voz alterada e o dedo indicador em riste. Meu pai apesar de durão, nas horas precisas, procurava ser justo, e mandou seu motorista levar furador de bolas para o hospital a fim de fazer os curativos. O ponto central do enredo dessa letra foi a historia do jovem Tadeu, que eu não o conheci, mas era irmão do meu amigo Oseinhas. Tadeu morreu atropelado quando corria atrás de uma bola mo meio da rua. Aquele acidente ficou bem registrado na minha memória por ter ocorrido na Rua 15 de novembro, próxima a casa da minha mãe, naquele campo clandestino onde também joguei muita bola, tanto quando aquela Rua ainda era de areia e sem calçamento de paralelepípedo ou asfalto, e também quando teve uma quadra de esportes onde joguei vôlei, basquete e futsal.
Em Juazeiro também estudei agronomia e depois de concluir o curso universitário trabalhei três anos mas, abandonei a carreira pra tornar-me um novo baiano.
Eis a letra de Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora.
Desde lá, quando me furaram a primeira bola/ No meio da rua/Na minha terra/ Quer dizer/ Em Juazeiro onde se dá o mesmo tem Ituaçu/ Desde lá, quando me furaram a primeira bola/ No meio da rua/Na minha terra/ Quer dizer/ Em Juazeiro onde se dá o mesmo tem Ituaçu/ Ô,ô,ô a vizinha tem vidraças/ Tem sim sinhô/ Ô,ô,ô a vizinha tem Vidraças/ Tem sim sinhô/Aos meus olhos bola, rua, campo/ E sigo Jogando/ Porque sei o que sofro/ E me rebolo para continuar menino/ Como a rua que continua uma pelada/ E a vida que há do menino atrás da bola/ Pára carro, pára tudo/ Quando já não há tempo/Para apito, para grito/ E o menino deixa a vida pela bola/ Só se não for/ Brasileiro nessa hora!/ Só se não for brasileiro nessa hora!