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Dia 15 nos Cinemas 

Fico feliz quando observo alguém ligado a midia reconhecendo o Mestre em João; Esse jornalista circunstancial, artista na sua essência, como alias deveriam ser todos que arriscam-se nessa seara de narrar os acontecimentos, equipado de sensibilidade e conhecimento dos mistérios que envolve a beleza da cultura de um povo reveladas através da arte, mas o Jabor faz parte da turma do Glauber Rocha, sabe das coisas.

Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo

João Gilberto fez 80 anos na sexta-feira passada, mas eu só o vi pessoalmente uma vez. Foi 17 anos atrás, no ensaio de um show no Ibirapuera (acho que era aniversário de São Paulo). Eu tinha virado jornalista, depois que o Collor acabou com o cinema em 1991, e me mandaram fazer uma reportagem sobre a preparação do show. E lá fui eu, na noite fria do parque, esperar João Gilberto chegar, enquanto o palco era montado. Já contei isso, na época, mas “vale a pena ler de novo”.

Vinte e três horas. Começa um boato de que João não virá para o ensaio nesta noite ventosa, angustiando tietes e organizadores que esperam ver/ouvir aquele “homem-suspense”, com seu jeito eclesiástico, seu ar de professor de ética, que, aliás, sempre me provocou uma sensação de culpa: “Estarei errado, comparado ao rigor artístico de João?” De certa forma, todos estamos.

Aí, chega a terrível notícia: João não virá! Mas, mesmo assim, ninguém arreda o pé. João provoca uma espécie de fé nas pessoas, que o esperam ali, entre carpinteiros malhando o cenário e uivos das caixas de som. Espera-se esse homem com a fome de alguma revelação.

Eis que, à meia-noite em ponto, faz-se um grande silêncio no parque: João Gilberto materializa-se no palco! Surgiu do nada. Ao seu lado, o irmão Vavá e o amigo do peito Krikor Tcherkessian, armênio delirante que tem arranques de paixão com a música brasileira.

E aí, percebo que o ensaio e o show do dia seguinte são partes de um fio só, não interrompido. Ninguém fala mais; um carpinteiro sussurra ao diretor Fernando Faro: “Posso bater este prego?” “Pode…” As marteladas vêm aveludadas, tímidas, respeitosas e param. João lança a voz pela noite como os primeiros traços de um quadro numa tela negra. Sua música é a pura modulação do silêncio que se instalou. Ele começa Canta Brasil. Todos se imobilizam – Daniela Thomas, emocionada, pinta cores de Matisse no cenário; a equipe de Walter Salles Jr., que filma o evento, comunica-se por telepatia e as câmeras flutuam como “ETs” mudos. Eu olho João mais de perto e vejo que ele veste calças jeans, paletó marrom e tênis branco marca Pé de Atleta e vejo intrigado que seu irmão Vavá, calvo e ungido como um frade, também usa tênis Pé de Atleta. Sinto que ali estava um indício precioso para desvelar um pouco do seu cotidiano tão misterioso. Por que Pé de Atleta? Terão os irmãos comprado tênis brancos, em doce fraternidade do dia a dia? O tênis branco fazia João mais real.

Subitamente, ele se levanta e, pisando macio no tênis, mergulha na escuridão do parque, para ouvir o teste de som, do outro lado da praça, a mais de cem metros. Corro atrás, como bom repórter principiante.

E aí, começa o mágico momento do encontro: eu, trêmulo, no meio das folhagens do parque, descubro deslumbrado que ele me conhece: “Oh… Arnaldo… Arnaldo… vejo você na televisão…” Só minha mãe me chamava de Arnaldo e, agora, seu filho, mamãe, estava ao lado do mito. Os testes do som vinham do palco e João me pergunta: “Arnaldo… (ele parecia ter prazer em escandir as sílabas meio humorísticas de meu nome), Arnaldo, que você está achando do som?”

Eu arrisco: “Os graves estão reverberando e há um vazio…” João concorda, de estalo: “É isso! Tem um vazio… Falta qualquer coisa! Tens razão, Arnaldo; a frase tem início e fim, mas não tem meio! O som não tem meio. Ouve: “Essa mulata quando dança é luxo só” – a gente ouve “mulata e só”…”

João se vira para os técnicos: “Falta o meio do som…” O chefe arrisca uma explicação tecnopoética de que o vento esgarça o som e que, no dia seguinte, no calor dos corpos da praça cheia, o som ficará denso.

Súbito, João já está no microfone (a memória me vem por cortes bruscos) e começa a cantar Ronda, de Paulo Vanzolini, que vira um gemido clássico sobre a solidão absoluta e eis que surge Rita Lee no escuro da noite (“O que vou cantar não sei… quebrei o braço; foi o tombamento do Ibirapuera… ah ah…”) e senta num canto do palco enquanto Krikor soluça em meu ouvido: “Ele é o Pelé da música… o mundo o ouve de joelhos!” Aí, chega o Caetano de um show no Anhangabaú e se junta discretamente a todos que ali se movem, ciciando, com passos camuflados. Tenho vontade de perguntar: “Há perigo?..” Há, sim, há o perigo de se quebrar a fina lâmina do silêncio, de desagradar a João.

Mas, ele está agora eufórico, cantando em falsete caricato o Dobrado de Amor a São Paulo, de Vinicius e Haroldo Tapajós, com o conjunto Quatro por Quatro. Depois, quando João canta Lua Cheia, todos já estão imóveis, como se o João fosse um passarinho que pudesse voar. Alguém me segreda: “Acho que o show já é só isso; amanhã ele nem vem…”

Mas, logo depois Caetano, meio tímido, passa Coração Vagabundo, que João repassa mais lento e mais baixo e Coração Vagabundo vira um réquiem e Rita Lee canta “cola teu rosto no meu rosto” e João emenda com Nada Além e o “além” soa como se João conhecesse o “país não descoberto” que vem depois da morte.

Enquanto isso, eu penso, aflito: “Perguntar o que, ao João?” Mas, só me ocorrem banalidades, toda ideia me parece rasteira, vulgar. Nervoso, decido perguntar algo que me revele mais segredos do cantor misterioso, algo “essencial”, de que os tênis brancos Pé de Atleta talvez já fossem uma pista.

De repente, vejo que João está indo embora. Apavorado, corro atrás dele, sem saber o que lhe perguntar: música, vida pessoal, política? Paro ao seu lado: “E aí, João?” Ele sorri, esperando. Atrapalhado, me sai pela boca a tal “pergunta essencial”: “E aí, João… ah… ah… para onde vai o Brasil?” Ele faz uma pausa, me olha fundo e diz: “Você sabe, Arnaaaaldo….” e some na noite.

João sabia o rumo do País e, bom sinal, não parecia preocupado.

Quando ele se foi, rompeu-se o silêncio, restaurou-se a realidade e alguém berrou aliviado: “Vamos comer num japonês!?”

Foi a única vez que estive com João Gilberto, em 80 anos.


Há certas coisas que eu não entendo ainda. Um paulista chegado meu, e que conviveu comigo nos momentos de São Paulo, teve a sorte de chegar na mesma hora que João Gilberto ia entrando para o local do show e também a providencial lembrança que tocou a sensibilidade de João, quando gritou “João Gilberto! E o artista, que alguns desenformados e pré-julgadores inconvenientes imaginam esnobe, respondeu cordialmente: “Oi !” E o meu amigo paulista continuou sua fala: “Eu sou amigo de Galvão.” Com isso João perguntou se ele estava indo para o show. Ele respondeu que não encontrara mais ingresso. João o convidou para entrar com ele e ainda lhe deu carona no carro que a produção mandou para levá-lo ao teatro. Que raríssimo presente!

Tempos depois, soube que o presenteado contou ter gostado do show mas não ficou satisfeito com a atitude de João quando ele, lá naquele momento da entrada do teatro, quis despedir-se estendendo a mão mas foi surpreendido com João negando-se a participar do toque de mão e dizendo “Não é nada de mais não… É que sua mão deve ter algum suor, e eu já vou entrar para tocar e as cordas exigem minhas mãos enxutas.”

Desenho de Ruy Carvalho, talento Juazeirence

TODO JOAO

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Suor Do Sol

João gira na bola João gira na vitrola
João anda no verbo
Violando no infinito
la laia la laia
João gira na bola
João gira na vitrola
João anda no verbo
Violando no infinito
Há perto cantou João:
Ame Amem Amem
Mas um acento no é
Fechou tudo em Amém Amém
É fogo é fogo
Spy versos Spy
Ninguém sacou João
Vem do meteoro o ouro o ouro é fogo fruto do suor do sol
Minado é o chão de uma terra onde até os brutos amam
Minado é o chão de uma terra onde até os brutos amam

 

JOÃO GILBERTO SEMPRE E AOS 80

Aplaudo de pé as homenagens que estão fazendo, ao artista número da música popular, João Gilberto, nacionais e em particular na origem Juazeiro da Bahia, mas eu cá com meus botões, sempre o reverenciei, desde os primeiros dias com ele em 1959 quando o ilustre conterrâneo passou alguns dias em nossa cidade antes de acontecer no mundo Brasil e no exterior. Na ocasião mostrou-me as duas músicas Chega de Saudade e Bim Bom, que as lançaria em compacto. Fiquei extasiadoao ouvi-las, e ao retomar o fôlego percebi que a música mudou de antes para depois da batida e do jeito de cantar de João Gilberto, e dali pra frente tudo que eu faço, seja em poesia, música, teatro  literatura, cinema ou futebol tem o dedo de João Gilberto

Eu era colega de colégio e tinha como principal amigo o seu irmão Jovininho, mas passei a andar mais com o João, e foram noites de bossa na beira do rio São Francisco, com violão e canto do além maestro J.G. Comprei duas bicicletas e deixei uma com ele. Foram passeios e vida por mundos nunca dantes navegados. João está acima de par e impar além de incomum, só o comparo a Einstein, Platão e outros grandes inventores, e para ilustrar essa afirmativa lembro alguns momentos com ele lá em Juá e no Rio de Janeiro: Mostrei para ele uns três poemas que nem existe porque se perderam naquele meu momento poético inicial, mas João consegui ver o meu potencial e disse-me

que eu era poeta e convidou-me para ir com ele fazer música para a Bossa Nova, respondi que não iria em razão do meu plano de estudar Agronomia. Ele falou: “Você um dia vai fazer coisas no Rio e em São Paulo, porque você pensa e o mundo é de quem pensa”. Passado alguns anos eu escrevi uma carta para João Gilberto dizendo-lhe que ia fazer o que ele disse , e viajei para a Cidade Maravilhosa, e o saldo foi a história Novos Baianos, escrita com arte vida, amor e futebol.

Já ouvi uma amiga da chamada esquerda dizer que Tropicalismo for um movimento e Novos Baianos um fenômeno, isso é porque esse pessoal só vê movimento se for praticado dentro do mundo universitário, mas o movimento Novo Baiano se deu no oceano Hippie. E hoje os proprietários dos restaurantes naturais foram aqueles garotos; o artesanato foi salvo por suas mãos e naquele período de seca ditatorial a alegria nacional sobreviveu nos rosto da juventude 70. E o dedo de João Gilberto ali orientando a modernidade musical que se historizou.

Quando iniciei escrever memórias de uma amizade com o génio da bossa , Conversei com vários músicos estudiosos de João Gilberto, para destacar aqui, de forma detalhada, sua técnica no violão e na voz, cuja alta sensibilidade torna possível esse todo artístico que é legado à humanidade presente e as que o sucederão.
Entre os músicos consultados estão Aderbal Duarte, Tuzé de Abreu,Paulo Levita,Rogério Duarte. Esse talentoso meio de campo traz subsídios para o conteúdo desta fotografia musical: Mistérios da Música Revelados em Shows & Gravaçõee João Gilberto, A Bossa – É também uma conversa entre pessoas que estudam João Gilberto, uns pela técnica e outros só pela sensibilidade, mas todos motivados pela música.
Mostrando meus alfarrábios ao conterrâneo este demonstra interesse em conhecer o que ainda nao lhe era próximo, Aderbal Duarte, que na época era professor de Violão de Peu Sousa, filho de Janete, irmão dos meus filhos, Ceceu, Lahiri e Kashi passei-lhe o numero do maestro que foi presenteado por Joazinho que em visita a Salvador, telefonou pedindo que ele vá ate a recepção do hotel pegar uma encomenda e ao chegar recebe a autorização para subir e passar horas a fio tocando com o Mestre.

Dias antepassados, revirando memórias juazeirenses, terra que compartilho com o amigo João Gilberto e em confabulação com Ruy Carvalho lembrando da musica Undiu ,cânticos da lavadeiras do rio São Francisco trazidas pelo mestre Joãozinho, lembramos que ela possui também uma letra de uma brilhante parceria,”Lamento de Marta”  que podemos ouvir  na trilha do “Seara Vermelha”
com o maior dos nossos escritores o Jorge Amado, pai de Paloma e João Jorge, avo da irma e amiga Maria João, e ficamos matutando a historia postada e sacramentada nos finitos internet alcance nosso; mas como tudo esta no ar eis que não mais que de repente, não e poetinha Vinícius de Moraes? Paloma captou e nos conta a historia completa mistérios da inspiração.

Feliz aniversario, Joaozinho

por Paloma Jorge Amado, sexta, 3 de junho de 2011 às 23:37

Conheci Joao Gilberto quando era bem menina, foi meu amigo de infância. Nunca mais o vi, tenho saudades todos os dias. Queria homenagea-lo nos seus 80 anos, e para isso fui buscar as palavras de papai e a foto que mamãe tirou no seu casamento com Astrud, do qual foram padrinhos. Com a palavra, o amigo Jorginho:

 

Fomos padrinhos, Zélia e eu, do casamento de João Gilberto com Astrud, o casal se separou nos Estados Unidos para onde Joãozinho viajara a fim de participar de um show, obteve tamanho sucesso que ficou por lá anos a fio.

No dia de seu embarque, indo para o aeroporto passou por nosso apartamento para o abraço de despedida, vestia roupa leve, própria para o verão carioca, em New York a crueza do inverno era manchete nos jornais. Ao vê-lo tão desagasalhado retirei do guarda-roupa um sobretudo usado: vista-o ao desembarcar do avião senão vai morrer de frio, pegar pneumonia. Essa a minha contribuição para o êxito do cantor nos States, o sobretudo que o salvou da pneumonia dupla.

Contribuí também para seu casamento com Miúcha: do primeiro matrimônio fui testemunha, no segundo funcio­nei de casamenteiro. Um dia recebi na Bahia telefonema de Joãozinho, ligava de New York, aflito como sempre, não mudara, continuava o mesmo:

Jorginho, você é muito amigo de Sérgio Buarque de Holanda, não é?

Sou, sim, Joãozinho, por quê?

Figura das mais fascinantes da comparsaria intelectual, Sérgio concedeu-me o privilégio de sua intimidade, coloquei-o de personagem em O Capitão de Longo Curso, assim homenageio aqueles que mais estimo e prezo, pondo-os nas páginas de meus romances. Na época do telefonema o mestre historiador se vanglóriava de ser o pai de Chico Buarque, compositor que estourara nas paradas de sucesso.

Jorginho, estou apaixonado pela filha dele, a Miúcha, irmã do Chico. Miúcha anda por aqui, ela também gosta de mim, queremos nos casar mas temos medo que Sérgio se oponha, você sabe como é, deve ter ouvido horrores a meu respeito. Queria que você falasse com ele, pedisse a mão de Miúcha em casamento, para mim. Diga a ele que não sou tão ruim como dizem por aí.

Habituado a me envolver com a vida de Joãozinho, prometo interferir —depressa, daqui a uma hora telefono de novo para saber o resultado. Desligara agoniado, eu ainda procuro o número de Sérgio no caderno de telefones, Joãozinho volta a ligar: eu ‘tava tão vexado que não mandei um beijo para Zelinha. Vexado, Joãozinho.

Disco o número paulista, Amélia atende, trocamos gentilezas, desejo falar com vosso ilustre consorte, Sérgio vem ao telefone, sabendo que sou eu começa a imitar sotaque holandês, é de morrer de rir mas eu me ponho sério para lhe informar:

Te telefono para pedir a mão de tua filha Miúcha em casamento.

Hem? Que história é essa? — abandona o acento batavo, coloca-se em posição de defesa, que peça estou querendo lhe pregar?

Não é para mim, é para João Gilberto, estão apaixonados, querem se casar, ele pediu que te dissesse que não é tão ruim assim, tão má pessoa como consta por aí, não deves acreditar nas más línguas…

Que me contas? É brincadeira ou falas a sério?

Falo a sério, relato a conversa de Joãozinho, telefonema em dólares de New York, repetida, esquecera o beijo para Zélia. Empolga-me a paixão dos dois  cantores, coisa linda, faço o elogio do candidato a genro e o faço com amor. De Joãozinho sei o direito e o avesso, do menino de Juazeiro nas barrancas do São Francisco ao músico ainda desconhecido, lutando no Rio em dias de aperto, sou seu parceiro, fiz a letra do Lamento de Marta. Quando solteiro, Joãozinho aparecia à noite no apartamento da Rodolfo Dantas, trazia o violão, ficava até a madrugada, cantando. Acontecia que Zélia e eu, cansados, íamos dormir, Joãozinho prosseguia em companhia de João Jorge, menino ainda, privilegiado. João Gilberto tocava, cantava, tendo como ouvintes apenas o moleque e o pássaro sofrê: vivia solto na sala e assobiava as músicas que Joãozinho dedilhava ao violão.

Sérgio escuta em silêncio minha lengalenga, a proclamação das virtudes de Joãozinho, gênio musical, amigo terno, pessoa amorável. No dia seguinte toma o avião para New York, vai estudar o assunto in locum, apaixona-se pelo candidato, só podia acontecer. Para terminar, um post-scriptum: já levava João Gilberto vários anos residindo nos Estados Unidos quando um dia apareceu-me em casa um portador trazendo encomenda enviada pelo músico: um sobretudo novo em folha, soberbo, eu o usei longo tempo, ainda o tenho. Ou será que o dei a João Jorge, o ouvinte solitário, o privilegiado? (Navegação de Cabotagem, Jorge Amado

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