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O Deputado

Antes de chegarmos aos dias atuais, voltemos a 81, quando, já com o grupo desfeito, aconteceu um fato que provocou uma transformação na minha trajetória que vinha no sentido exclusivo da arte e foi desviada para a política, quando me candidatei a deputado federal pelo PMDB, partida que fazia oposição às forças governamentais que haviam herdado o governo da ditadura militar. Era o tempo do PMDB de Ulisses Guimarães. Foi por influência de Glauber Rocha que tomei essa atitude.

Eu passava de táxi quando avistei Glauber andando pela calçada, feliz gritei: “Glauber!” Recebi dele um aceno que me fez mandar parar o táxi. Ele entrou pela porta traseira e sentou-se ao lado de Bola, o percursionista e perguntou:

– Galvão, você vai pra onde?

– Pra Copacabana – respondi.

– Então vou pegar a carona para irmos conversando.

Ele foi objetivo e com outra pergunta conduziu a conversa:

– Porque você não se candidata a deputado federal? Você por Juazeiro e Moraes por Ituaçu. Você é um deputado, se nós não fizermos a lei, eles farão e vão nos prejudicar e eles, em sua maioria, são corruptos e vão roubar o dinheiro do povo.

– Glauber, você é o meu presidente – eu disse.

Ele riu e me convenceu:

– Para que eu possa ser presidente, é preciso que vocês sejam os deputados.

Senti que Glauber acreditava possível chegar à Presidência e não importava o partido porque ele não me indicou nenhum. Depois ele levou a conversa para outro canto e me perguntou por que eu não iria morar em Juazeiro e que “isso aqui”, referindo-se ao Rio de Janeiro, “já acabou”, estamos pisando nas sombras das ruínas, eu vou morar em Vitória da Conquista. Disse-lhe que Juazeiro não me cabia, porque meu caminho era o mundo fora de casa.

 

O Pandeirinho


Eu não cantava, embora quando ainda morava em Juazeiro o fizesse dentro e até fora do banheiro mas, não era músico e apenas me reservei fazer as letra se a direção do grupo, além de dar a maioria das entrevistas porque o pessoal preferia dedicar-se ao trabalho musical, deixando esse pepino para mim, que tinha de explicar a filosofia do grupo: daí ser chamado de mentor intelectual do grupo. Representando tudo isso, e distante da sua concepção de arte, não poderia ser entendido com facilidade pela cabeça empresarial de Marcos Lázaro mas, para felicidade nossa havia um baianos na equipe dele, o Antonio Carlos, que tentava convencê-lo. Entre os músicos e mais artistas da área, rola sempre a piada do pandeirinho. Eu gostava bem quando contada pelo saudoso Pedrinho Batera, ex-Som Nosso de Cada Dia. Ele começa com Dom Marcos recebendo das mãos do tesoureiro das mãos do tesoureiro as contas dos extras do hotel. E Pedrinho imitava a voz de Marcos Lázaro com seu sotaque de gringo falando em português comum toque espanhol:Esse Galvon faz o que? Tá aqui assinado por ele seis sorvetes. 15 agua de coco, 10 castanhas, o que ele fa?” E fazia também o Antonio Calos explicando em baianês*: Bem, ele faz as letras das músicas, e a direção artística”. Dom Marcos já vermelho: “Quero saber no palco, Qual o instrumento dele?”Antonio Carlos: Ele é o mentor intelectual do grupo, e faz a direção atuando no palco, que é a novidade agora aqui e no exterior. Dom Marcos: “O instrumento? Eu quero saber o instrumento”. Nosso defensor mais que, já meio desanimado: “Ele não toca instrumento nenhum”. Dom Marcos: “Nem um pandeirinho?”

 

Filhos de João , Admirável Mundo Novo Baiano

Première Cinemark

HENRIQUE DANTAS

BRASIL – BA / BRAZIL – BA

75′, cor, VIDEO, 2009

Diálogos: DIÁLOGOS EM PORTUGUÊS / PORTUGUESE DIALOGUES

Legenda: SEM LEGENDAS / NO SUBTITLES

  • CINEMARK ELDORADO (SÃO PAULO – SP) – 04/04 – 19H30
  • CINEMARK DOWNTOWN (RIO DE JANEIRO – RJ) – 07/04 – 19H30

A trajetória irreverente e inovadora do grupo Novos Baianos.

 

Aleksandra Pinheiro
alepinheiro@comunikapress.com.br
filhosdejoao.com.br

R: Roteiro – A: Animação – DF: Diretor de Fotografia – C: Operador de Câmera – SD: Som Direto – S: Som – M: Montagem – Mu: Música – ES: Editor de Som – P: Produtor – DP: Diretor de Produção – PE: Produtor Executivo – CP: Companhia Produtora

 

João Araújo foi nosso descobridor e produtor do nosso primeiro LP Ferro na Boneca. O bom gosto musical de João se afinava com os caminhos musicais do grupo. Ele nos convenceu a usar maestros nos arranjos de determinadas músicas, deixando outras para que Pepeu as arranjasse, embora nos solos Pepeu ficasse com liberdade para dar nossa cara à música. João foi o responsável também pela colocação de metais no nosso trabalho, e fomos premiados com os violinos regidos pelo maestro Hector Lanha Fictta. Naquela época, João Araújo não se ocupava exclusivamente com a área comercial e produziu Ferro na Boneca cuidando, opinando mas, nos deixando com o poder de decisão em todo o processo do disco. Três anos depois, fizemos o Acabou Chorare, já na gravadora Som Livre. Ele colocou outro produtor, Eustáquio Sena mas, acompanhou de perto as gravações e se entusiasmava com a qualidade das músicas. Ele previu o sucesso de “Besta é Tu” e “Preta Pretinha” e nos animou, dizendo: “Esse vai ser a nossa consagração, venderá mais de cem mil discos, é melhor ainda que o Ferro na Boneca”. Antes de o disco sair, ele levava quase todas as noites Walter Clark e Bonifácio Neto, mais conhecido por Boni, ambos diretores da TV Globo na época, à boate Number One para assistirem nosso show, que utilizava o repertório do disco como base do espetáculo. Nós morávamos em São Paulo mas, quando vínhamos ao Rio de Janeiro, ficávamos algumas vezes em hotel, e em outras, nos levava para sua casa, que virava uma casa de espetáculos. Toda noite fazíamos um showzinho particular para a imprensa amiga de João ou para amigos importantes que ele convidava para conhecer nosso trabalho. Nós não trocávamos o tempero de Cedalha por nenhum restaurante fino. Cedalha, cozinheira da casa de João Araújo, sempre tinha um docinho especial, que ela dizia ter sido feito para nós. Ela mandou nos convidar para seu casamento.
Cazuza, que anos mais tarde se tornou o melhor poeta dos anos 80 na MPB, naqueles dias em que éramos seus hóspedes, não perdia um segundo. Um dia chegamos a Som Livre e nos deparamos com Cazuza trabalhando de recepcionista. Ele nos botou na frente de todo mundo para falar com seu pai, João Araújo, com o argumento, ou melhor, com o artifício de que João Araújo já estava nos esperando há mais de meia hora; e ainda enfeitava a história, dizendo: “Vocês são um barato. Nunca chegam na hora marcada”. E nós, subindo a escada, dizíamos para ele: “Aqui não é seu lugar, você é um artista”. Cazuza respondia: “São coisas do Velho, querendo me colocar na linha”.
Também me lembrei de um encontro que tive com Zé Vitor, que fora diretor comercial da CBS, quando lhe falei de uma jovem cantora baiana ainda desconhecida mas, com muito talento , Sara Jane. E ele me perguntou: “E ela é bonita?”. E respondi: “É uma linda morena de olhos verdes”. “Sendo assim, pode trazer que ela grajva. Cantando bem e bonita é o que o Brasil está precisando”. Eu fui fazer outra coisa em São Paulo e, quando voltei à Bahia, Sara Jane já estava fazendo sucesso na ODEON. Na saída da sala de João Araújo, este me perguntou o que eu achava de Cazuza. Disse-lhe que ouvira “Bete Balanço” e ficara muito feliz por sacar que Cazuza era um bom letrista e filho artístico dos Novos Baianos. João Araújo me disse: “Ele gravou sem a minha interferência mas, agora eu vou prestar atenção, você, que é um poeta que eu respeito muito, está dizendo que Cazuza é bom”.

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Upload do documentário Novos Baianos FC completo no youtube em link unico. Aproveitem. Em breve estara nos cinemas esse grande trabalho do Solano Ribeiro.

Futebol e música

O futebol era depois da música a maior atividade na nossa comunidade, mesmo com alguns críticos que colocando de forma pejorativa o futebol dos Novos Baianos pela desinformação, ou talvez tenham sido meninos que não brincaram na rua e cresceram longe da bola e alguns com alergia a ela. Esses imaginam que futebol é coisa de brasileiro e modernidade e por dentro seja exclusividade da Inglaterra, França e Estados Unidos da América. Ledo engano! O Brasil criou o drible a trivela e a categoria. Futebol é, a única atividade esportiva entre nós, capaz de uma realização profissional sem a necessidade de peixada, padrinho ou estudos escolares: basta um garoto (com o desenvolvimento do futebol feminino, pode ser também uma garota) de qualquer raça, cor ou classe social, que saiba dominar uma bola de meia ou, na falta, um caco de telha, reunido a uma dedicação prioritária ao seu sonho de craque da bola. É também a grande possibilidade de enriquecimento de um garoto vindo das camadas menos favorecidas, mesmo sendo analfabeto e o futebol pode transformá-lo em intelectual.

 

 

BAGDÁ E NOVOS BAIANOS

BAGDÁ E NOVOS BAIANOS
      
         Com o mundo globalizado, só a cultura identifica e distingue. Se um dia o Brasil acabasse, nada restaria das nossas árvores, das nossas cidades, de nossos rios, de nossa gente e de nossas montanhas, o silencio boiasse num mar sem águas de areias e ventos, e um deserto imenso cobrisse a face do que já não éramos. mas se no meio desse nada, desse vazio que não cabe na nossa imaginação restasse um único disco de música popular brasileira, bastaria isso para que se soubesse que aqui existira uma grande civilização, uma formidável cultura.
          Esse disco seria a pista para encontrar nas letras a poesia, os costumes e os sentimentos mais profundos, do amor ao ódio, da traição à fidelidade. Pela melodia poderíamos identificar os instrumentos e os seus sons pelas vozes, as pessoas que cantavam. Seria descoberta dos rios mortos, das montanhas desaparecidas, da vida do povo que aqui vivera e, no meio dessas descobertas, veríamos renascer o Brasil e os brasileiros.
          A religião, as nossas crenças, os nossos deuses, nossas festas, tudo seria possível reconstruir, através desse único tesouro, a memória da música popular brasileira. E no meio dessa riqueza de sons, surgiriam os velhos do meu tempo, os clássicos de hoje. Luiz Gonzaga, o Gozagão, a cantar “Riacho do Navio”, João do Vale, no “Vento Leste”(e, já que entrei nas águas do Maranhão, Chico Maranhão, Bulcão e Godão, Nazaré e Alcione), Noel Rosa, em “Conversa de Botequim”, o “Carinhoso” , de Pixinguinha, Miguel Gustavo no “Hino da Seleção”, Elizeth Cardoso, cantando “Chão de Estrelas” de Orestes Barbosa , a “Ronda” de Paulo Vanzolini, Roberto Carlos com “Nossa Senhora”, Bethânia e aí para coração. Não cabem neste espaço todos os outros, grande expressão do talento nacional.
          Eu sairia pra respirar e lembrar-me do que me fez olhar e descobrir a juventude sadia dos meus filhos, quando os Novos Baianos entraram na nossa casa e na nossa vida, invadindo as madrugadas com sons que até hoje me recordam esses encantos e esses tempos. Duas coisas me intrigaram e me fazem protestar inconformado com o fato de sermos volúveis, o esquecimento de José Lins do Rego, que não se edita , que os de hoje não conhece, o grande romancista das secas, de obras primas como” Fogo Morto”, e dos Novos Baianos. Estes são um grande momento da musica popular brasileira “Acabou Chorare” é um clássico, canções que, quando meus filhos estão de violão a cantar: Toquem “Preta Pretinha,” “Mistério do Planeta”… E Caetano Veloso, Luis Vieira, Milton Nascimento, Papete, Tom Jobim, Chico Buarque e esse mundão de talentos e de Brasileira está na cultura popular e nada mais forte nessa cultura do que a música.
          Tudo para dizer o quanto sofri quando vi a destruição do museu de Bagdá e a queima da biblioteca nos incêndios e bombardeiros da cidade.
          Sempre evoco que o maior desastre “ecológico”, que levou um pedaço gigantesco da vida na terra, da vida, que são livros , foi a queima da biblioteca de Alexandria.
          Se tivessem destruído tudo em Bagdá, mas tivessem deixado os livros e o museu, seria possível descobrir que ali existiu uma grande civilização. Aqueles testemunhos da história do homem não poderiam morrer.
           Com o ministro Gilberto Gil, cantor da alma brasileira, divido o coração ferido. Ele sabe que, aqui ou em Bagdá, “em Guadalajara” ou “longe em Nova Déli”, a cultua é o mais alto do homem. Nos céus, os valores do espírito.
José Sarney
Presidente do Senado e membro da Academia Brasileira de Letras
Artigo Publicado na Folha de São Paulo em 25/04 2003

 

Peu Sousa

Quando conheci Peu Sousa, ele disse logo “Você é o pai do meu nome!”.

Você fez a música “Quando Você Chegar”, quando e eu ainda estava na barriga da minha mãe, que não o conhecia, e ela colocou o meu nome Pedro por causa das frases: Quando você chegar/ É mesmo que eu estar/ Vendo você/ Me chamando de Pedro… Por isso e mais alguma coisa você é meu pai astral. Às vezes as pessoas me perguntam: “Você tem um filho que é guitarrista?” Eu respondo que sim e com muito prazer, porque participei da criação de Peu Sousa ainda bem pequenininho e dizia: Ele será um grande músico. Quando cresceu se tornou o meu segundo maior parceiro, e dirigi meus shows e Cds. No momento atual ele está na praça mandando ver com sua guitarra.

 

 

DNA Novos baianos

Estamos ai na luta , continuando fazendo musica e jogandp Bola, Lahiri, Poeta, Xanda e ceceu atores,   Kashi e Peu guitarristas as filhas da Baby cantando , os filhos de Paulinho tambem tocando, vamos trabalhar minha gente continuar a cultura desse pais patria mae gentil e veras que os filhos teus nao foge a luta pela Luz Paz e amor.


O artista multimídia Rogério Duarte, um tropicalista que sabe harmonizar os seus lados intelectual e intuitivo, contribuiu para essa parceria com texto de apresentação do LP Caia na Estrada e Perigas Ver, que registramos a seguir:

O som deles está aí para todos sacarem, Não é o resultado de teorias, princípios ou quaisquer outras formas de intelectualismo.

Ele é o fruto da vivência profunda de um grupo cujo fundamento é a escolha do tortuoso caminho da criação e recusa aos vãos atrativos da caretice.

Os Novos Baianos surgidos em meio caos de 69, não são o reflexo desse caos mas, a superação necessária de suas contradições, a abertura dos compartimentos onde estavam encerrados os componentes da resposta ao impasse. Essa superação e resposta só poderiam se dar no plano superior da criação coletiva, heterodóxica onde há lugar para dualismo decorrente da especulação acadêmica dos nefelibatas.Daí a complexidade da concepção musical desse grupo de cantores, instrumentistas, poetas, bailarinos, letristas, compositores e sobretudo gente, gente finíssima mesmo.

Quem tiver olhos, veja. Quem tiver ouvidos ouça.

Rogério Duarte

São Paulo Julho de 1976

 

Vamos inteirar esta parceria Tropicalismo-Novos Baianos com duas entrevistas com os tropicalistas Capinan e Rogério Duarte, onde eu, Galvão dos Novos Baianos, sou o entrevistador.

Entrevista com Capinan

Galvão: Poeta Capinan, antes de chegarmos ao Tropicalismo, que é o tema dessa entrevista, nos fale do CPC, movimento cultural do qual você participou.

Capinan: O CPC foi o principal enfoque cultural com que a esquerda revolucionária trabalhou algumas idéias nucleares a respeito da transformação da sociedade brasileira. Os Centros Populares de Cultura surgiram no início da década de 60, nas principais capitais do país, ligados ao movimento estudantil. A exemplo de Rio e São Paulo, as grandes cidades do Norte e Nordeste desenvolveram núcleos de atividades culturais através de militantes, intelectuais e artistas – tendo como base a universidade. Os núcleos básicos do trabalho articularam arte e educação, através, principalmente, das iniciativas de teatro e alfabetização. Ética, estética, política tinham seus conceitos maximizados numa discussão plena, polêmica e, sobretudo, levada a efeito nas ruas, nos palcos, numa autêntica mobilização de talentos emergentes, quase em todas as áreas da atividade cultural. O CPC na Bahia contou com a participação de quase uma centena de ativistas, colaboradores que se distribuíam em departamentos e produziam peças, músicas, cartilhas, slides, filmes, impressos etc. O CPC foi um boom cultural, uma vanguarda estética e política, e seria uma redução dizer que o CPC era populista ou apenas um movimento de agitação política. Sua experiência foi além do que hoje se chama arte engajada, ou música de protesto etc.

Galvão: Há uma parceria sua com Gil que ficou na história da Música Popular Brasileira, “Soy Loco Por Ti América”, cuja poesia é uma das primeiras experiências em portunhol. Diga algo sobre isso e fale também da homenagem a Guevara, e como você conseguiu dar toques líricos e românticos tratando de revolução, de heroísmo.

Capinan: Jamais gostei do termo “engajamento” ou música e poesia “de protesto”. Estes termos soavam com certa dose de “mecanização” do ato poético. Meus poemas e canções políticas são tão apaixonados como meus poemas de amor, mais recentes. A escolha nos põe em contato com o tema de forma existencializada. Eu falei “El nombre del hombre muerto”, eu pronunciei “Marti”, poeta cubano anterior à revolução castrista, como pronuncio o nome de Clarice ou qualquer outra pessoa amada. No ginásio era ensinado o espanhol e sempre me pareceu uma língua melódica, própria para a poesia – e alguns poetas como Lorca e Miguel Hernandez, como Neruda e os Guillens, César Valejo, que são descobertas do tempo de CPC, me despertaram o sentimento do mundo, e uma vontade de atuar – de ter sotaque, e de ser latino-americano. E quando “Ponteio”, em 67, estava no palco recebendo o prêmio de melhor música do festival da MPB, Guevara estava sendo caçado e morto em Santa Cruz de La Sierra. Na madrugada de sua morte, eu escrevi a letra de canção Soy loco Por ti América e entreguei ao Gil, que criou este hino fantástico que se mostra como uma das músicas precursoras do Tropicalismo. Era forte a onda tropicalista e a crítica feroz conosco, tanto à esquerda como à direita. Mas tanto Tropicalismo como “Soy Loco Por Ti América” continuam utópicos, como os melhores dias dos anos 60.

Galvão:Capinan, o Tropicalismo foi um movimento que revelou alguns poetas, entre os quais você. Fale sobre a poesia tropicalista.

Capinan: Os poetas tropicalistas são Caetano, Gil, Torquato Neto e eu. Não são poetas cultos, com informação universitária, mais com extraordinário conhecimento de cultura popular, principalmente a cultura da mídia moderna – como rádio, cinema e quadrinhos. Sobretudo anti-acadêmicos, eles concebem a poesia tropicalista como um território aberto onde a sintaxe de um mundo revolucionário vai se manifestar – absorvendo, sem nenhum acordo, a poesia popular e os recursos eruditos, propondo assim uma estética sem domínio de escola ou ‘ismo’. Rompem com o quadro conservador, desdobram informações que o modernismo, desde 22, põe à disposição de liberdade de invenção, e que são vigentes desde a vontade de conhecer e transformar devora e põe em febre os poetas de todos os tempos. Na poesia tropicalista, está presente o neo-realismo, a nouvelle vague, o Cinema Novo, a Bossa Nova e, pelo menos pelo que eu aprendi do meu exercício de CPC, também o CPC. Na poesia tropicalista, estão presentes o sentimento do prazer estético, desde a mais primitiva situação de fruição artística, passando pela tradição ibérica, Camões, Pessoa, a poesia da colônia, de Gregório, nos românticos, a inspiração caribenha – absorvendo, sem nenhuma pretensão, a produção contemporânea, na expressão mais legítima do que podemos chamar de vanguarda crítica e criativa.

Galvão: É do interesse nacional e, principalmente, do meio estudantil toda esta história vivenciada nos anos 60/70. Por isso, conte sobre o exílio interno e externo vivido pelos tropicalistas.

Capinan: O exílio, a prisão, foram realidades da cultura brasileira contemporânea. A cultura contemporânea no Brasil era produzida numa situação limite, daí as pessoas não entenderem o fato de não encontrarem, após a queda da ditadura, nenhuma produção significativa nas gavetas. Confesso que vivi um grande medo enquanto escrevia meus poemas e canções. Eu tinha um verdadeiro pavor de ser preso, e pode ser uma grande fantasia mas, sempre tive medo de ser torturado. A razão fundamental desse meu medo não era o de dor física mas, de remorso, de culpa e um pânico moral de, sob tortura ou qualquer outro meio de persuasão, ser obrigado a confessar ou entregar alguém. Eu não sobreviveria a uma situação dessa. Mas nunca fui preso. Fui censurado, fui perseguido, tive o telefone censurado e até levei uma surra numa praia do Leblon, no Rio. Sofrimento grande viveram Gil e Caetano, exilados. Posso dizer que saí da Bahia em 64 para viver semi-clandestino no Rio e São Paulo mas, tivemos pessoas que foram presas e torturadas, mortas, e eu não experimentei uma dor tão grande como a delas. Ninguém pode dimensionar o efeito do medo numa cultura. Até hoje não sei o quanto a minha poesia teve medo e o quanto ela pode ser audaciosa.

Galvão: Capinan, no debate sobre Tropicalismo de que participamos no IRDEB, você falou da efervescência cultural que se desenrolava em Salvador, no período próximo à explosão do Tropicalismo. Seria importante que você registrasse isso para um universo maior de público, e este livro pode ser o veículo. Capinan, qual a expectativa que você nos dá quanto a vê-lo escrevendo outros gêneros literários e não apenas a poesia?

Capinan: Ficção para mim é completamente impossível. Não sei fazer prosa. Não tenho jeito, não sou do ramo. Teatro me interessa mas, me falta a disciplina para resolver situações etc. Creio que até encararia um projeto de uma peça mas, dentro de uma equipe. Já até pensei em trabalhar com alguns diretores na Bahia, escrevendo um texto. Tenho uma certa curiosidade de fazer isto hoje, porque foi com o teatro que comecei a transformar e a experimentar melhor meus recursos como poeta. No CPC escrevi alguns sketchs e duas peças musicais – o Bumba Meu Boi, com Tom Zé, e o Auto das Cheganças, que ficou sem música. Roteiros de shows e cinema tenho feito muitos e gosto de criar para publicidade, principalmente campanhas políticas.Galvão: Quais os caminhos que toma a sua poesia dentro e fora da música?

Capinan: Quando o CPC foi fechado em 1964, eu já tinha experimentado a poesia em livro e no teatro. Foi mais fácil para mim assumir a canção, a letra de música como forma de fazer poesia sem necessariamente pensar que fosse uma forma inferior; ao contrário, aliada à música popular, a poesia exercia com mais eficácia a sua função social. Poucos poetas conseguiram no Brasil viver do seu trabalho. Talvez apenas um tenha conseguido isso, que foi Vinícius de Moraes. Eu gostaria de viver exclusivamente do ofício de fazer versos e canções. Mas ainda não será possível, é preciso que a gente melhore o sistema de direitos autorais e também que o país leia mais, que a educação ofereça mais vagas nas escolas e que, qualitativamente, possa reconhecera importância da poesia como forma de conhecimento. Não sei se responde a sua pergunta, Galvão. Eu poderia também falar dos caminhos “expressionais” que a minha poesia tem tomado. Não sou um poeta de escola. Não sou um poeta erudito. Aprendi poesia porque foi onde encontrei uma morada para o meu sentimento de estrangeiro. E encontrei meus pares em diversos movimentos – principalmente nos modernos –, nos inconformados na tradição e nas rupturas. Tanto assim que uso recursos formais aprendidos com a vanguarda e com a poesia popular, sem pensar numa eleição partidária. Como forma de conhecimento, a poesia está fora de pregação das escolas. Sou um militante do fazer (poesia). Fui do CPC, fui tropicalista e vou sendo o que melhor me parecer ser um poeta.

Galvão: Para encerrar, tente definir o movimento Tropicalista.

Capinan: Vai ser difícil definir o movimento Tropicalista. Suas idéias foram amplas e no seu núcleo havia uma resistência grande a que ele se tornasse um ‘ismo’ – isso lhe dá internamente um jogo dialético de procedimentos, de articulação de informações, de aportes tão variados – de cepecistas, como eu e Tom Zé, a criadores como Caetano, que jamais fez questão de afirmar a questão política, bossa-novista como Nara Leão, os Mutantes, que era um grupo emergente do que se poderia pensar como o pop brasileiro etc. A crítica mais feroz encarou os tropicalistas como antinacionalistas, quando na verdade, tínhamos um grande amor à cultura brasileira e somos radicais defensores de uma cultura brasileira, bem mais capaz de ser do que outras culturas; só não éramos xenófobos nem entendíamos o nacionalismo expresso apenas, univocamente pelo samba, que foi eleito símbolo do nacionalismo. Nós éramos anticolonialistas radicais, e somos ainda. E respondíamos à ditadura militar com os poemas mais contundentes da época sem necessariamente cair no ‘militarismo antimilitarismo’, que eram as músicas de protesto. Os tropicalistas tinham o sentimento do mundo. Ouvíamos os Beatles, eu malmente, que não sei inglês. Mas também sabíamos o que se passava no mundo, em Paris, em maio de 68, nos EUA com os hippies, que para nós eram os desdobramentos da cultura beat, que eu já conhecia antes de 64, ainda na Bahia fazendo CPC, com toda aquela mobilização pelo amor, contra a guerra etc. Os tropicalistas conseguiram abrir o cerco militar e crítico que se fez em torno da arte no Brasil, não somente com a censura de direita, também com o conservadorismo de esquerda. Os tropicalistas fizeram o que Caetano pensou quando formulou a idéia da linha evolutiva na música, dando um salto qualitativo em nome de dois motores fundamentais da criação: a tradição e a invenção. Nós reconhecemos a arte brasileira, seus grandes artistas populares ou não, assumimos um Brasil que a turma de gosto universitário tinha vergonha de assumir, como manifestação de mau gosto (como Vicente Celestino), e assumimos o Brasil que tinha um sentimento contemporâneo do cinema, do rádio, da TV, das grandes tecnologias da comunicação. E queríamos que as universidades se abrissem e funcionassem. Assim como ainda queremos que o país se alfabetize, que permita aos brasileiros serem felizes, e que a nossa sociedade passe ao século futuro com as luzes do conhecimento iluminando tudo – no sul e no nordeste. Queremos um Brasil a plenos pulmões, democrático, popular, rico, esclarecido, em paz, justo com todas as suas etnias, e informado. Isso é o tropicalismo.

 

E Rogério Duarte volta agora sendo entrevistado.

Galvão: Rogério, como foi que os tropicalistas se juntaram? Fale principalmente do seu encontro com Caetano e Gil.

Rogério: Os tropicalistas nem se juntaram, como por exemplo os Novos Baianos. Eles nem sequer sabiam que eram tropicalistas. A não ser que você fale de Caetano, Gil, Gal e Maria Bethânia, que já estavam juntos desde o início, e Torquato Neto também.

Para que o tropicalismo tivesse existido aconteceram encontros entre esses músicos e outros do Rio de Janeiro, como eu, além de Hélio Oiticica, que era da área das artes plásticas, e Luís Carlos Barreto, que fazia cinema.

O que ocorreu na verdade foi o encontro entre esses músicos baianos predestinados com artistas de vanguarda do Rio de Janeiro, onde me incluo. Eu trabalhava no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com Hélio Oiticica. Éramos chamados a turminha da vanguarda. Fazíamos arte erudita de vanguarda na área de artes plásticas e literatura, e sobre tudo na militância anárquico-contestativa-estética-política. O que houve foi esse encontro que, de repente, aparelhou esse grupo de um conjunto de técnicas suficientes para a deflagração de uma revolução no mundo das manifestações estéticas. Era como se uma mesma pessoa tivesse se multiplicado em vários para adquirir as várias especializações, e depois tivesse se reunificado numa totalidade. Isso já tinha começado no CPC, embora no meu caso tenha começado na década de 60. Eu recebi uma bolsa de estudo através de Anísio Teixeira, que era meu tio, e com essa bolsa eu podia estudar o que quisesse. Eu tinha que mandar relatórios para o Ministério. O meu estudo era oficializado.

Participei da criação da primeira Escola Superior de Desenho Industrial do Brasil, a ESDI. Eu era dissidente e muito garoto, e por isso não me levaram a sério e eu tive que fundar meu próprio curso de comunicação visual no MAM. Neste contexto chega Caetano, vindo de Salvador. Começamos logo a conversar na sua chegada. Eu já sabia que ele estava vindo com Gal, Maria Bethânia e que, de certa maneira, o meu destino já estaria comprometido com eles.

Quando um dia Aneci Rocha me mostrou uma carta de Caetano, onde havia a letra de “Sol Negro” (letra e música, pois Caetano havia escrito o nome de cada nota correspondente embaixo da sílaba das letras), ela também me disse: “Eles vão chegar e vão mudar tudo, (ainda em detalhes sobre Gracinha e Berrê). Primeiro surgirá Bethânia e Gal vai surgindo aos poucos, com voz cada vez menos tímida, mais perfeita na afinação, doçura em tudo”. Ela não falou em Gil mas, Gil foi o primeiro profissional de todos, que conduziu os outros no sentido de assumir mesmo a profissão tão nova e misteriosa de star.

Uma força irresistível nos movia para frente, para a luz tropical de novas praias e manhãs. Um enorme grupo se forma, tendo ao centro Caetano e Dedé, que eram apenas dois meninos namorados da Bahia no meio de nós. Com “Alegria, Alegria”, o sorriso de Caetano Veloso conquista definitivamente o país. O sorriso de menino olhando pra frente com a mais absoluta fé. Imagem que foi se transformando sempre em torno de um mesmo olhar, alegre, triste e sobretudo lúcido.

Gil é gênio da música, gordo e sorridente também mas, que quando cantava e contou a emoção era sentida unanimemente por todos. Ali estava Gil cantando e só ele, irrecusável, irradiante, indefinível.

O bacana do tropicalismo é que não precisou de nada disso. Tínhamos, todos, as dúvidas. Sabíamos todas as filosofias. Preferimos, no entanto, adotar um conjunto de teorias, ou melhor, encerramos a filosofia e começamos a professar o nosso verbo. Éramos nós os anunciadores. A filosofia era aquilo que fazíamos. Os numerosos papos, loucos, confusos e, na hora, uma certeza total.

Tão contestatório e revolucionário que todos os amigos, que depois constituíram o movimento, reagiram. Caetano me lembrou a posição revolucionária de muitos outros criadores do Tropicalismo. Quero me incluir entre os que estiveram mais à vanguarda desse movimento. Na galáxia geral, Marx, Sartre. Quem mais: os marxistas todos, os existencialistas e, por um outro lado, os super sofisticados, desde Wittgenstein e Marx Bense, com quem estudei, depois vieram os Campos, por onde medrou a semente da Tropicália.

Galvão: Rogério, como o Tropicalismo está perto da Bossa de João e, ao mesmo tempo, no auditório da Jovem Guarda de Roberto?

Rogério: Ontem Caetano me disse uma coisa de uma atriz internacional, que casou com um importante ator ou diretor de cinema. Ele disse: “A minha diferença com ele é que eu não venero Bob Dylan”. E a gente comentou que talvez esse desejo de negar fosse sintoma de uma importância, e lembramos o que surge de novo: João Gilberto não enterrou o passado, pelo contrário, Ary Barroso, Herivelto Martins, Pedro Caetano, estiveram sempre vivos na sua voz. Daí o tropicalismo tentar ser uma espécie de religião de tudo. Em suma, éramos adoradores de João Gilberto e de outros como João Gilberto também, que nunca quis ser mais que apenas a música popular. A pura Canção. O eterno menestrel. A jovem guarda era absolutamente irresistível. Roberto Carlos era irresistível, e uma vez dei um pontapé na televisão porque a minha namorada ficava olhando para ele. Eu pensava que ela viajava escondido pra São Paulo para namorar com ele. Ele tinha uma franjinha caída do lado da testa. Enfant Terrible. Eu tive logo que ceder aos seus encantos mas, no princípio cheguei a ter raiva do seu charme porém, jamais poderia negar o surgimento do rei. Neste princípio, Roberto Carlos foi a nossa vanguarda. Porra, como esse cara é moderno, sentíamos. Jovem Guarda, edição tupiniquim dos Beatles, em nada inferior à matriz de Liverpool, já João Gilberto vinha desde o princípio e teria que ir até após o fim.

A Tropicália teve o comando de Gilberto Gil, Caetano e empresarial de Guilherme Araújo, a minha participação crítica e agitação.

Galvão: Como você sentiu os Novos Baianos na prática de filhos do Tropicalismo?

Rogério: Ontem mesmo conversamos segunda, terceira. E por isso puderam se dar ao luxo de serem tão maravilhosos”.eu, Caetano e Gilberto Gil, sobre os Novos Baianos e Caetano disse: “Aquilo era o máximo. Inacreditável. Ninguém podia imaginar”. Aí eu disse: “Eles eram uma terceira geração de alguma coisa. Não primeira ou segunda, terceira. E por isso puderam se dar ao luxo de serem tão maravilhosos”.

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