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a casca se banana

A casca de Banana que eu Pisei (Morais/ Galvão)
Ferro na Boneca
Continental
1970

O ônibus que me leva
Vai de roda e direção
De destino na lapela’
Roda ônibus, roda asfalto
Se afastando do infinito
E eu acho mais bonito
Mais bacana, cana, cana
A casca de banana que eu pisei
Roda ônibus, roda asfalto…

No início dos Novos Baianos, em 69, nós estávamos morando, no Rio de Janeiro, e fomos de ônibus para São Paulo. Na estrada, noite de lua cheia, olhei pela janela e a inspiração veio. Peguei a caneta e escrevi a letra falando daquele momento: “O ônibus que me leva…”
Para finalizar a letra usei um acontecimento no qual levamos a pior, mas como a nossa filosofia é de que queixa estava por fora preferi ri gozar com o nosso insucesso, quando furou um show que tinha sido prometido e contávamos com ele, resolvi fechar assim: “E eu acho mais bonito/ Mais bacana, cana, cana/ A casca de banana que eu pisei”
…..

trio eletrico

O TERCEIRO TRIO ELÉTRICO DA BAHIA
E A RENOVAÇÃO

O Trio Elétrico Dodô e Osmar cuja história é conhecida por todos será sempre um destaque em todas conversas sobre trio elétrico. Qualquer passo dado para a evolução do invento dos dois baianos, Dodô e Osmar, somará para o trio, que leva o mesmo nome dos autores com acréscimo do doce Armandinho.
O Trio Elétrico Novos Baianos veio pela admiração que o grupo tem pelo Trio Dodô e Osmar, e porque todos os integrantes do grupo, em determinado momento, se identificam com o sentimento do sagrado movimento da vida, mesmo estando trabalhando na profana festa, inspirados nos santos, no cumprimento de uma missão de viver no meio dos homens ainda num primário estado de evolução. Pepeu, desde menino sonhava em ter um trio seu. Sonho natural de um guitarrista baiano que nasceu tocando, podemos dizer. O trio elétrico Novos Baianos teve a participação importantíssima de Pepeu, Moraes Moreira, embora não tenha participado da formação desse trio elétrico, pois já estava fora do grupo na ocasião, integrou o Trio Novos Baianos, na apresentação comemorativa dos 20 anos do grupo. Ele também sonhava cantar para um grande público como o de trio elétrico. E assim sonharam Baby, Paulinho e todos Novos Baianos; a ponto de Moraes colocar uma letra, por sinal boa, em “Pombo Correio”, composição de Osmar que foi sucesso no carnaval baiano de 1976.
Nesse mesmo ano, o trio elétrico Novos Baianos estreou na praça, com a participação de Paulinho e Baby, que eram os cantores do grupo, e Pepeu, que era o maestro mas, fazia o vocal. Incorporaram-se ao trio elétrico uma mesa de som, três microfones e trocaram-se as cornetas por caixas de som. Não podemos esquecer a importância que teve nosso saudoso técnico de som, Salomão, que desencarnou sorrindo, já depois do grupo desfeito.
Antes, quando incluímos o chorinho em nosso trabalho, Armandinho já dera a Pepeu a afinação certa do bandolim, e Jorginho Gomes vinha praticando o cavaquinho. Assim, não foi difícil chegarmos ao trio elétrico, com Dadi no baixo, Baixinho na bateria, Charles nos pratos, Bola no bumbo e mais o reforço de quatro caixas e três bumbos. O trio elétrico fez um som com personalidade, ficando conhecido pelo público pela característica desenhada por todas as áreas do trabalho, cordas, voz e percussão.
Depois, o trio elétrico Novos Baianos lançou o teclado no trio, trazendo Luciano Alves, um músico carioca. Marcantes foram os encontros dos trios Dodô e Osmar e Novos Baianos, nas madrugadas de terça de carnaval para quarta feira de cinzas, com a presença de Caetano Veloso e Moraes Moreira. No ano em que saiu a música “Festa no Interior”, Gal Costa também marcou presença, encantando-nos com sua voz. No finalzinho dessa fase, antes do carnaval axé, Gilberto Gil nos deu o prazer da sua presença.Os Novos Baianos em 1981, não apresentaram trio mas ,Moraes Moreira cantou no encerramento histórico do encontro dos trios. Caetano Veloso, sempre o príncipe do nosso explosivo carnaval, cantou o “Hino do Senhor do Bonfim”, com a cobertura da televisão e eu assisti a tudo com a mesma emoção vivida nos anos anteriores em cima do trio dos NB.
No início dos anos 70, Caetano fez uma série de frevos que fazem parte do repertório eterno do Bahia/Carnaval. Vou citar apenas “Atrás do Trio Elétrico”, “Chuva, Suor e Cerveja”, “A Filha da Chiquita Bacana”, “Deixa Sangrar” e “Ela Só Dá Bandeira”, para que você possa estudar a qualitativa poética do tempo Caetano no carnaval. Moraes Moreira, junto com outros poetas como Fausto Nilo, Abel Silva, Antonio Risério, substituíram Caetano, que se afastara dessa atividade carnavalesca, e não deixaram cair o nível poético com: “Chão da Praça”, “Bloco do Prazer”, “Moçambique”, “Festa do Interior”, “Eu sou o carnaval” e “Pombo Correio”, antes sucesso instrumental chamado “Doble Morse” e “Chame Gente” composta de parceria com Armandinho. Com o poeta Capinan, Moraes fez a também sucesso “Que Papo é Esse”.
O trio elétrico Dodô e Osmar tem a honra de ter sido criado por esses dois inventores baianos ter recebido, de forma merecida, o nome desses dois baianos históricos, e foi também, entre os trios, o que mais evoluções apresentou na área alegórica e de efeitos especiais, sem falar na qualidade da guitarra baiana de Armandinho e nos discurso de Osmar, o que fez do trio um palanque de causar inveja aos mais importantes políticos do universo.
Coube ao Trio elétrico Tapajós a exportação do trio elétrico para outros carnavais brasileiros, e podemos citar Curitiba como a praça de melhor adaptação. O Tapajós ainda teve o valor de participação nos carnavais de que O Trio elétrico Dodô e Osmar se ausentou, portanto, graças ao Tapajós, a chama do trio continuou acesa. Também, grandes guitarristas nasceram nesse trio, entre eles Luis Caldas e Renatinho Fechinne, que se desenvolveram e profissionalizar-se dentro daquela super popular atividade musical e beneficiaram-se com a excessiva comercialização na Bahia e que se espalha pelo Brasil e até no exterior. Muitas vezes, o Tapajós mandava os seus melhores músicos para o carnaval de Minas ou da Baixada Fluminense, por ser mais negócio em termos de grana, e deixava o seu trio em Salvador com músicos do seu terceiro escalão. O baiano, que é extremamente bairrista, considerava isso uma falta grave.
O Trio Elétrico Novos Baianos foi o responsável pela evolução do som que passou das estridentes cornetas-mamão para as sofisticadas caixas de som, instalações de mesa de 16 canais e microfones que possibilitaram a presença dos cantores. Tudo isso viabilizou o atual estágio do trio elétrico que hoje conta com uma infinidade de carros do gênero, graças também a estrutura de produção montada pelos blocos.
Uma grande injustiça cometida pelos organizadores oficiais do carnaval baiano, nos últimos anos, foi o afastamento de Baby Consuelo. Os portadores dessa idéia radical e burra esquecem que Baby foi à primeira cantora do trio, hoje uma profissão definida para várias garotas baianas com talento artístico, que poderiam ter se perdido ou desviado do curso dos seus dons artísticos para outro campo que não o de cantora de trio, não fosse o trabalho desenvolvido por Baby, possibilitando o exercício dessa nova profissão nascida na Bahia. Porque premiar a Baby com o exílio? Sua influência está viva aos olhos de todos, seja na forma de cantar ou pela postura e gestos de outras cantoras que ficam em segundo plano diante do trabalho desenvolvido por ela na praça, junto ao grande público. Baby parou briga, fez discurso, foi forte e fez cultura. Num daqueles carnavais, estávamos em cima do trio e de lá sacamos um indivíduo perverso, com uma gilete na mão, cortando a barriga das pessoas que dançavam despercebidas da sua crueldade. Baby na hora abriu a boca no microfone denunciando o desalmado que foi imediatamente preso. Pepeu também, embora baiano do Garcia, é discriminado e considerado carioca por morar no Rio. Moraes Moreira só não ficou fora porque foi à luta e deu testa com a organização municipal do carnaval de Salvador, contra um pensamento segregacionista e primário em formação.
Um nome da maior importância para a colocação do trio dos Novos Baianos foi Valdemar de Periperi, que já trabalhou na administração do Tapajós. Como força de expressão, podemos dizer que Valdemar, em outra encarnação já foi do trio elétrico, como nos diz sua dedicação a essa árdua e divertida causa baiana. Por anos seguidos, eu e Paulinho Boca viemos para a Bahia na frente do grupo, para conseguirmos patrocínio, providenciarmos a construção da estrutura metálica do trio e agilizarmos todo o esquema para a colocação, em tempo hábil, do nosso trabalho dentro do carnaval baiano. Procurávamos Valdemar, que se encarregava de administrar a construção da estrutura física do trio e arregimentar músicos para compor a percussão. Nos outros trios que ele ajudou a formar, Valdemar ficava responsável por quase tudo, até procurar patrocínio. Não era fácil a tarefa, em razão dos curtos espaços de tempo de que dispúnhamos, passamos sustos terríveis e vivíamos sempre sob tensão e expectativa mas, no final sempre conseguíamos nosso objetivo. Uma vez, a barra pesou tanto, que se não fossemos tão otimistas, dinâmicos e portadores de uma fé inabalável, a vaca ia pro brejo, para a frustração do grupo que jamais poderia se imaginar fora de um carnaval naquela década de O fato ocorreu mais ou menos assim: tínhamos recebido o dinheiro do patrocínio e mandamos construir a carcaça do trio mas, não encontramos um gerador de 60 ou 80 KW para fornecer energia elétrica para o trio. Na Bahia, todos sabem que o carnaval começa quinta-feira e já estávamos na sexta à tarde e nada de gerador, por mais que procurássemos. Aquela altura a nossa falta na rua era notada e reclamada. Baby Consuelo e Charles ficaram em casa concentrados exercitando a fé; eu e Paulinho Boca caímos em campo nas últimas tentativas para resolver o problema do gerador.
Soubemos que existia um gerador de 80 KW, em um órgão público e nos mandamos para lá. Como era a única alternativa que nos restava, partimos convictos que aquele gerador seria nosso durante o carnaval chovesse ou fizesse sol. Enquanto ficamos na anti-sala do diretor, esquecemos as pessoas presentes e nos concentramos numa mística, começando pelo som univérsico “Aum”, discretamente, em voz baixa e de forma imaginária. Passaram na tela individual de nossas mentes as figuras de Baby e Charles, também em atitude e posições semelhantes. Chegamos a comentar um para o outro, sobre aquela visão individual e, ao constatarmos que ela fora também em comum, tivemos a certeza de que finalmente o gerador caíra do céu, depois de tantas andanças nossas pelo purgatório terrestre. Demos um pulo de alegria e gritamos para espanto do pessoal que ali se encontrava: “É mole pro Vasco! Vamos incendiar no carnaval”. Embora o grupo fosse dividido em vascaínos e flamenguistas, com apenas Jorginho Gomes torcendo pelo Fluminense, exclamamos com essa gíria carioca porque eu e Paulinho Boca torcemos pelo Vasco.
Não precisou nem esperar mais, ali mesmo, na sala de espera, a sorte nos sorriu e daquela vez Maomé veio à montanha e o diretor, ao abrir a porta, vibrou dizendo: “É você Paulinho? Quero ver se você me reconhece? Lembra que já fomos amigos? Se você acertar o lugar onde convivemos antes, eu resolvo o problema de vocês seja qual for. É o poeta Galvão que está em minha frente? Você é dos meus preferidos”. Paulinho, gaguejando, mas, com firmeza, soltou a lábia: “A cara está diferente que eu quase não reconheci, mas, a voz é inconfundível: foi no colégio Central. Você sabe por onde anda Canção?” E os dois caíram na risada abraçando-se, e o diretor disse: “Esse Paulinho continua o mesmo, olhe de quem ele foi lembrar! Eu sou fulano”. Resultado: dali saímos com o gerador e o técnico que ele autorizou acompanhar o aparelho. Baby Consuelo, quando chegava em Salvador para o carnaval, nos acompanhava na busca do patrocínio e tinha, ela também, um papo convincente de canceriana. Só saíamos com o trio no sábado mas, quando pintanmos na praça e a galera, que já estava fula de raiva, julgando-nos irresponsáveis, esqueceu tudo e pulou atrás na frente e dos lados do Trio elétrico dos Novos Baianos.
Nós fizemos algumas músicas para o carnaval, que foram prejudicadas devido as gravações terem sido feitas em cima da hora e principalmente pela fraca divulgação. Não fizeram sucesso mas, algumas pessoas as cantam até hoje, pelo menos pedacinhos ou o refrão; outras nos perguntam por que não regrávamos. São exemplos: “No Tcheco-Tcheco”, “Ovo de Colombo”, e a “Praça Castro Alves”, cuja letra ainda atualíssima vou transcrever:
Por ironia do destino, duas músicas nossas que não foram especificamente feitas para carnaval alcançaram sucesso: “Preta Pretinha”, que é tocada em todos os carnavais baianos e em vários trios, e “Ela Não é Flor Que Se Cheire”, música que foi composta em 82, sendo interpretada por mais de um trio elétrico com letras nossa e melodia de Cardan, um compositor baiano que não toca instrumentos nenhum mas, bate os dedos nas cordas do violão enquanto fixa os dedos da outra mão nos braços dos acordes, e vai compondo um ritmo que vem de dentro dele. Mandamos a fita cassete para Pepeu gravar no disco que ele ia lançar. Pepeu e Jorginho Gomes ouviram, fizeram a harmonia, trocaram algumas notas e a música foi gravada, alcançando relativo sucesso. Houve uma história interessante nesta música. Eu tinha uma namoradinha de 17 anos de idade, que morava na Boca do Rio, onde eu também morava na casa de Cardan Dantas, que era um barato. A casa era pequena e modestíssima mas, muito visitada, principalmente por turistas. Acho que deveria ter sido tombada pelo Patrimônio Mundial. A namoradinha estudava no Colégio Nobel, no Rio Vermelho, e passava cedinho às cinco horas da manhã, batendo na janela e saltando-a para namorarmos. Algumas vezes, eu, como cavalheiro, levava-a de ônibus e gozávamos o visual da beira mar, deixando-a no colégio; outras vezes, ela voltava sozinha e em outras a espertinha filava aula. Eu não lembro o seu nome mas, ela foi a musa da letra que diz:
Toda manhã/ Ela bate em minha porta/ Toca em minha janela/ Só pra ver o sol entrar/ Eu lhe asseguro/ Ela não é flor que cheire/ Mas mais que o sol/ Ensolará o coração.
O Trio elétrico Novos Baianos é filho do Trio elétrico Dodô e Osmar, e por isso, além da qualidade musical dos seus instrumentistas, o repertório rico não esconde essa paternidade. Os cantores do grupo deram ao trio o toque que faltava, enriquecendo a grande criação baiana da seguinte forma: Moraes foi o primeiro cantor de trio elétrico a cantar no microfone inadequado que fora colocado para Osmar falar com o público mas, Moraes não resistiu. No ano seguinte, tanto Moraes quanto Baby e Paulinho, no Trio Novos Baianos, cantaram com microfone de qualidade e nosso trio apresentou o sistema de caixa de som. O repertório do trio elétrico Novos Baianos personalizava o trio pela originalidade e por fugir da regra geral, que era seguir as paradas de sucesso e as indicações dos musicais de televisão. Colocávamos apenas alguns sucessos que passavam pelo crivo da nossa seleção. Em razão desse comportamento, o Trio elétrico Dodô e Osmar, nos distinguia com os encontros históricos, bem como, a galera nos esperava com ansiedade de namorado, olhando o relógio e andando pra lá e pra cá.
Laçamos o compacto duplo relacionado abaixo mas, só ficou pronto três dias antes do carnaval, e por isso não houve tempo de divulgá-lo.

Trio Eletrico Novos Baianos(Novos Baianos
Compacto Duplo – Tapecar – 1976

CASEI NO NATAL, LARGUEI NO REVEILLON – (Letra: Galvão – Música: Pepeu)

Ei!/Ei, ei, ei ei, ei ,ei/Ei!/Ei, ei, ei ei, ei ,ei/thank very muth/Ei!/Ei, ei, ei ei, ei ,ei/Ei!/Ei, ei, ei ei, ei ,ei/Que bom que é casar/No dia de natal/Meu bem/ Que bom poder Largar/Que bom poder Largar/Largar no reveilon/ Ei, ei, ei ei, ei ,ei/Ei/Ei, ei, ei ei, ei ,ei/Meu bem/Seu Nelson/To eu soltinha da Silva/fugi que nem passarimho/ Livre até quarta feira/Ah, ah, ah, ahAí seu carneiroO negocio é só depois de fevereiro

PRA ENLOUQUECER NA PRACA (Instrumental Pepeu Gomes)

ALIBABA ALIBABOU (Charles/Jorginho/ Galvão)

APOTEOSE DO TRIO PRA DODO (Instrumental – Pepeu Gomes)
Mais uma vez chegamos atrasados e embora cantássemos no trio elétrico as músicas não aconteceram no carnaval.
No ano seguinte gravamos o LP Praga de Baiano

Praga De Baiano – 1977 TAPECAR

chegando no RJ


Não precisou muito para que fizéssemos amizade com os vizinhos a ponto de hoje lembrarmos coisas vividas bem nítidas na memória e até na tela dos olhos projetadas pelo pensamento, como se estivesse acontecendo agora. Dona Vitória uma senhora de mais de 70 anos era nossa amiga predileta e como já virara criança, brincava conosco de igual para igual.
Apesar do pouco tempo que passamos nesse primeiro contato com o Rio, marcamos presença em Ipanema. Nós nos vestíamos da forma mais exótica e extravagante associada ao bom gosto. Certo dia, ou melhor, uma bela noite, fomos dar uma volta pelos bares mais badalados da noite carioca, e quando entramos no mais famoso deles que era freqüentado por artistas e celebridades cariocas, o Varanda, fomos aplaudidos de pé pela bonita e elegante gente que lotava o bar. Teve até quem nos oferecesse lugares em suas mesas para que o grupo pudesse se acomodar. Também pudera: cada um do grupo trazia, acoplado em suas roupas, adornos de peles dos mais variados animais, num clima super tropicalista e até antropofágico, mas, mantendo um requinte e brilho que só as peles fornecem. Os artistas plásticos davam alguns toques embora todos tinham um grau de originalidade predominante na escolha pessoal do traje. Não nos demoramos muito e trocamos o Varanda pelo Zeppelin e aí quem nos recebeu foi o baiano, artista gráfico, professor Rogério Duarte, intelectual que saiu da estante e foi para a rua tornasse filósofo. Ele proferia um discurso de cunho político, de esquerda, em defesa dos mais legítimos interesses sociais, para, em seguida, apresentar uma proposta anarquista em favor da liberdade e dos direitos humanos. Ao nos avistar, Rogério empolgou-se, subindo na mesa, o que atraiu a atenção da polícia já solicitada pela direção da casa. Rogério questionou o bar pela venda aberta dos tóxicos, álcool, cigarro, carne, açúcar e não ter maconha na prateleira. Ao sentir a aproximação da polícia, bradou em voz alta uma frase aludindo à nossa performance que jamais esqueci: “Olhe a fé nos olhos deles!” E, virando-se para os policiais, concluiu: “Não estou bêbado não. Estou muito triste”. Com isto, Rogério Duarte marcou o gol que faltava para a vitória da criatividade, liberdade, paz e amor, quando os intrusos do espetáculo daquela noite deram as costas e foram embora.
Hoje, já tanto tempo depois, Rogério Duarte continua o mesmo. Outro dia, estávamos na casa de uma comadre minha e amiga dele, e na televisão passava uma propaganda que dizia: “Vem pra Caixa você também”. E Rogério falou: “Que absurdo, chamar alguém pra caixa, eu fui torturado numa caixa”.
Ainda reverenciando Rogério Duarte, um dos intelectuais atuantes no movimento tropicalista, que antes já fora no Rio de Janeiro diretor de museu e, mesmo tendo vindo da Bahia, se tornara parte da produção cultural assimilada pela juventude carioca, Rogério, pós-Novos Baianos, como artista gráfico, fez capas de discos para Gilberto Gil e João Gilberto.

Felipão foi o segundo Road Manager, do grupo. Ele era um engenheiro mecânico que fora demitido da Petrobrás, em 68, num ato arbitrário da ditadura militar. Só com o retorno da democracia, Felipão e outros demitidos do Brasil inteiro receberam indenização. Soube que Felipão comprou um sítio em Araruama e hoje vive a paz em São Conrado e me hospeda quando vou ao rio de Janeiro . Foi ele que conseguiu o show da grande arrancada dos Novos Baianos para o sucesso na boate Number One. Felipão deixara quase todo o seu passado e casara-se com os Novos Baianos, mudando-se para o sítio da Boca do Mato, passando a viver a filosofia do grupo. Até Cristina, sua mulher, uma loura carioca das mais bonitas do seu tempo, separou-se dele mas, não resistiu ao amor e foi ser uma nova baiana, e com ela, foram Natália e Cristina, filhas do casal. Novos Baianos era uma família, em que os componentes eram parentes ou não. Lembro-me nitidamente de um acidente que Natália sofreu. Ela avistou Cristina

comigo no outro lado da Rua Jardim Botânico e, na tentativa de atravessar a rua, foi atropelada por um ônibus que a lançou a uns quatro metros. Imaginei coisa pior mas, quando a apanhei nos braços, senti vida, embora ela estivesse desacordada. Todos sentimos como se fosse uma filha nossa.

Estávamos em 75 e procurávamos um teatro para fazermos uma pequena temporada, constatamos que todos os existentes no Rio de Janeiro estavam ocupados. Felipão encontrou uma solução assinando um contrato de três dias de show no cine Bruni 70. Dois filhos do Lívio Bruni, que era o proprietário, montaram uma firma para realização de shows musicais, transformando o cinema em casa de espetáculos. Isso fora acertado através do jornalista Tarso de Castro, que estava namorando a irmã deles. O engraçado dessa história foi não ter sanitário no camarim. Para ser realista, não havia nem camarim; apenas um espaço na lateral do pequeno palco fora improvisado para tal. Quando se aproximava o início do espetáculo, alguém do grupo sentiu uma dor de barriga, pediu um jornal e falou: “Olhe todo mundo pra lá, que eu vou fazer as necessidades fisiológicas aqui mesmo”. As palavras foram mais populares. Todos obedientes e de costas para a cena, quando fomos surpreendidos por uma comitiva que trazia nada mesmo que o Rolling Stone Keith Richards, para nos apresentar. As pessoas se aproximavam e nós riamos, deixando-os perplexos. Gato Félix disse-me que na comitiva estava Florinda Bolkan, e parece que também Bianca Jagger. Como baiano costuma cantar o milagre mas, não dizer o santo, bem que o autor da anti-façanha pode ter sido eu, mas deixo a dúvida para o leitor. O astro internacional não entendeu nada, mas assistiu tudo. Como não tínhamos mais tempo, pedimos licença e entramos no palco, e Keith Richards foi levado para sentar na primeira fila. Livinho, que era doidão, pegou o dinheiro da bilheteria e deu no pé. O irmão dele e Tarso de Castro, depois, acertaram tudo.

Nosso amigo Felipe é uma pessoa da qual podemos dizer que tem um coração de mãe, nunca vi ninguém tão prestativo, e somado ao seu grande relacionamento na área, o grupo e a comunidade dos Novos Baianos ganhou bastante com ele. Felipe chegara seu JK. Eu tinha outro que o meu sócio, em uma mina de mármore lá em Juazeiro me mandara. Cristina trouxera um fusca. O meu carro teve um final Seu Gene ris. Numa excursão do grupo iniciada no verão baiano, em razão da perseguição da polícia, transformamos os dois em um, usando peças fundamentais para o funcionamento do motor, e tivemos que deixar um JK quase inteirinho abandonado em Salvador. Quando voltamos ao local, seis meses depois, nem o chassis restava para contar a história.

Baby e Chacrinha

AS FÉRIAS MINÚSCULAS DA BABY

Em 1970, Baby ainda Consuelo dera uma saída relâmpago do grupo, mas, não no processo de arquivamento temporário de Novos Baianos na lixeira dos computadores da atividade e da mídia. Engraçado é que o motivo não estava relacionado com dinheiro ou outras vantagens mas, apenas nós tínhamos gravado o Ferro na Boneca, nosso primeiro LP, e a música que recebia o mesmo título do disco entrara nas paradas de sucesso, e Baby tinha uma pequena participação naquela gravação. O grupo foi feito na improvisação, a partir do casual encontro dos talentos e, a música escolhida para divulgação do CD foi sugerida por João Araújo o nosso produtor e ele tinha experiência no assunto que Ferro na Boneca é um dos sucessos dos Novos Baianos. Eu fizera a letra e Moraes a “Curto de Véu e Grinalda”, para que Baby a cantasse, porque representava muito bem o irreverente da sua personalidade, associada ao estágio juvenil que ela atravessava.

Baby falava para mim: “Você precisa dar um jeito, para que divulguem “Curto de Véu e Grinalda , porque eu não agüento mais ficar fazendo quase nada em “Ferro na Boneca” . Eu falava a verdade, para que ela tivesse paciência e esperasse mais um pouco, porque inevitavelmente isso ocorreria num futuro próximo. Naquele momento, as rádios não permitiam que duas músicas de um mesmo autor alcançasse as paradas. Baby não agüentou aquela situação e deixou o grupo, passando a divulgar “Curto de Véu e Grinalda”. Sentimos muito sua falta no palco e na real.

Ela começou a fazer sucesso, com a música subindo degraus e “Ferro na Boneca” caindo um pouco mas, mantendo um espaço entre as dez primeiras. Tudo somando para o grupo, mesmo sem no momento sabermos disso. Baby chegou, em pouco tempo, a aparecer mais que o grupo, agora reduzido a Moraes, Paulinho Boca cantando, enquanto eu começava a fazer performance na televisão ou em shows. A Baby era a única mulher entre nós, e isso nos causava maior problema que se ela fosse um homem. Sua saída naquele momento inicial seria uma catástrofe, porém, não passou por nossa cabeça uma vez sequer, que o grupo não continuaria em função da perda de um componente.

Moraes, Paulinho e eu tocamos o barco sendo acompanhados por um conjunto de músicos. Um deles foi o grupo Brasões que acompanhara Ton em “São São Paulo”. Nós, sabedores do potencial artístico de Pepeu como guitarrista, lutávamos para que os produtores o colocassem em nossas apresentações, embora os conjuntos acompanhantes tivessem um guitarrista. Também somava a favor de Pepeu a musicalidade baiana e outras afinidades. Ele criou um conjunto em Ribeirão Pires, que tocava em baile de Clube. O nome era Enigmas e dele, além de Pepeu, participavam Odair Cabeça de Poeta, Pedrão, que depois foi do Som Nosso de Cada Dia, e mais um francês chamado Jean. Passamos um tempo bem acompanhados por esses rapazes. Pepeu antes já acompanhara o grupo no primeiro show, Desembarque dos Bichos, com um conjunto de nome Leif’s, formado quase todo pelos irmãos Gomes. Sem falar nos arranjos das músicas que foram feitas por ele, com o dedo de Moraes.

Um dia, Baby falou para o Chacrinha,

a quem ela chamava padrinho: “Quero que você me arranje um dinheiro, para eu ir me juntar novamente ao grupo em Salvador”. Foi um rebuliço na equipe de produção, que tentava dissuadi-la da ideia que, para todos, era uma irresponsabilidade. Só o Velho Guerreiro pensou diferente e foram estas as suas palavras: “Dêem o que ela pediu que eu gosto muito dessa menina e o destino dela é junto deles. Esses Novos Baianos são muito unidos, doidões e misteriosos”.

Estávamos no Porto da Barra quando surgiu Baby numa alegria, parecendo que viera de um disco voador, (se é que eles existem) e disse de chofre: “Voltei! Não agüentei a saudade”. Nós nos abraçamos e fomos comemorar com um mergulho nas águas da Bahia. E o grupo, embora estivesse vivo, renasceu com mais consistência. Curto de Véu e Grinalda também faz parte do cordão de sucessos que a dupla Moraes/Galvão tem no currículo e isso graças a atitude da Baby.

Com a volta da Baby gravamos um compacto duplo e a capa mostra a nossa ligação com Jesus, do modo como o estávamos interpretando.

O tempo senhor de tudo e sempre presente.

De onde eu vim

com essa coisa de poeta

Juazeiro da Bahia, terra de João Gilberto e Ivete Sangallo, berço da Bossa, aonde eu levava uma vida bem diferente da registrada pelos anos 70 de contracultura, mas eu prefiro chamá-la de contra sistema, por que como posso ser contra cultura se a faço? Luiz Dias Galvão era um bom moço, como os pais gostam e os outros sonham tê-los como genros, mas quando cheguei no Rio de Janeiro caí na gandaia e troquei o garoto certinho pelo irreverente e anos 70. Hoje muita gente não entende porque o eu atual está careta parecido com o bom, menino da infância em Juazeiro da Bahia.

Desde dois anos cavalgo nessa poesia de madeira

Na minha cidade natal eu fazia poesia, mas era famoso como jogador de, vôlei, basquete e futsal esporte que fui campeão baiano dos jogos abertos do interior em 1964, penta campeão da cidade. Não me arrependo de ter me formado em Agronomia, mas, tinha que abandonar a carreira pra ser um dos Novos Baianos, e me encontrar com o poeta e etc.

A pensão de DONA MARITÓ

No início de 1967, na pensão de Dona Maritó, Rua Democrata 17, Salvador, nascia Novos Baianos, um grupo musical que escreveu, compôs, cantou e desenvolveu o palco de show business. Além de ter vivido na prática suas canções e textos assumiu uma posição dificílima com postura, discurso, mística, experiências zens e alquimias, tudo num espírito anárquico positivo. Enfrentou o tempo Médici como numa partida de futebol, dando sangue, suor, inteligência, calma, juventude, alma e todas as virtudes para vencer e na pior das hipóteses, empatar, porque derrotas as tive, mas, as transformamos em vitórias; não podíamos perder, representávamos a vitória, o sol, a alegria, a irreverência, a criatividade, o sonho e a paz. Éramos meninos com casa, Deixamos o ninho paterno e nos estabelecemos em vôo. Acreditávamos ter uma missão.

Eram mais ou menos nove e trinta da manhã quando cheguei à pensão de Dona Maritó e fui direto ao quarto de Moraes. Zé Walter, seu irmão, recebeu-me. Moraes dormia ao lado. Fui logo falando: “Tom Zé mandou-me aqui. Estávamos fazendo música mas, o tropicalismo o chamou para São Paulo e ele profetizou que seríamos parceiros”. Mostrei as minhas letras: “Rua Chile”, “Chame o Guarda” (inéditas até hoje), “Ferro na Boneca” e “De Vera”. Zé Walter acordou Moraes e disse: “Tonhe, esse cara é um poeta e fez umas letras que, pra mim” é seu “parceiro”. Moreira leu assim meio com sono e disse que ia fazer a música de todas. Perguntei se havia vaga na pensão e Zé Walter cedeu a cama dele, foi para outro quarto e em quinze dias nós já tínhamos umas oito ou dez músicas prontas

Outro dia de sol apareceu Paulinho Boca de Cantor; ele já havia participado antes do conjunto Carlito e sua Orquestra, junto com Tuzé de Abreu, Perinho e Moacir Albuquerque, Tuti Moreno e Nilton. Eu e Moraes tínhamos ido à casa de Tuzé e lá Paulinho, aquela figura elegante, super desinibida começou a bater numa caixa de fósforos um samba de Riachão, com uma voz bonita e uma malandragem nos chamando a atenção. Dali nós três saímos para comer no bar Braseiro da Rua Carlos Gomes. O trio passou a encontrar-se diariamente.

Na pensão de Dona Maritó durante o dia todos trabalhavam ou estudavam a exceção do Seu. Arlindo que era ex-comerciante que estava aposentado e viera de Jequié como cidadão desquitado. Os outros eram: Guimarães (não sei se bancário ou comerciário, lembro apenas do ótimo vocalista do grupo baiano Canto Quatro do qual Moraes era líder), João Brito, o gay do pedaço e amigo de todos. No seu currículo constava ter sido coroinha da igreja de sua terra e, naquele momento, ele trabalhava na empresa onde eu exercia a profissão de Engenheiro Agrônomo (agora fiquei preocupado por ter entregado João Brito na sua intimidade, embora ele mesmo nunca tenha feito segredo disso para ninguém. Pelo contrário, João levava numa boa mas, eu não o vi mais e, como tudo se transforma, segundo Lavoisier, hoje ele pode até ter casado com mulher e eu posso com esse papo, estar criando problemas para o nosso João Brito ou João do Padre como seus conterrâneos o chamavam). Vamos torcer para que o nosso João Brito continue o mesmo e essa alusão se justifique pela comunicação do meu escrever buscando o interessante e vivendo as graças da criação. Aí eu vou fundo e deixo rolar o que vai passando nessa cabeça sem vergonha. Aconteça o que acontecer João é superior a tudo isso e tem personalidade para assumir qualquer momento seu sem perder a sua autoridade. Bira, que era estudante, formou-se em Direito e desde a década de 80 vem advogando em Vitória da Conquista – Ba. Na época em que eu e Moraes morávamos na pensão de Dona Maritó, ele integrava o Canto Quatro, do qual também fazia parte Guimarães e Buião. De Fabrício só lembro o nome e que era baixinho e tinha uma carequinha. Às vezes ocorre isso com a gente, aparece uma pessoa e convive um tempo, numa relação dia a dia, e depois desaparece de um jeito que você não sabe mais nem notícia. A figura mais querida na pensão era o Parrudo. Isso porque ele ria o tempo todo, tinha um coração maior do que ele e fazia questão de almoçar e jantar com o Seu Arlindo quando podia. Wesley Rangel estudante, hoje é empresário que vem desempenhando um papel importantíssimo com a criação da gravadora baiana WR, responsável pelo sucesso dos novos artistas numa valorização da prata da casa e pela criação do mercado baiano de discos. Quem sabe se não foi ali na Dona Maritó, no convívio com os primeiros passos dos Novos Baianos, ainda anônimos, Galvão, Moraes e Paulinho, aquelas noites de músicas inéditas para o grande público que Wesley ainda estudante criou raízes com a música popular brasileira formando o sonho, hoje realidade presente?

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